História da Varíola

A Varíola era uma doença aguda, causada por um vírus – o Poxvirus variolae. Ocorria sob duas formas, com comportamentos epidemiológicos distintos, mas manifestações clínicas semelhantes. A varíola major, popularmente conhecida como bexiga, caracterizava-se por quadros clínicos mais graves e alto índice de mortalidade. A varíola minor, ou alastrim, mais branda, matava menos de 1% dos atingidos.

O período de incubação durava de 10 a 14 dias. As primeiras manifestações da doença eram febre, mal-estar e dores de cabeça e nas costas. Dois a três dias depois, começavam repentinamente as erupções na pele, normalmente no rosto, nos braços e nas pernas. A princípio, eram pequenas brotoejas, que evoluíam depois para pústulas (bolhas purulentas). Muitas vezes, estas lesões eram confluentes, isto é, carreiras de pústulas se unindo ao longo do corpo, formando o que popularmente se chamava de bexiga de canudo.

Nas formas mais graves, os pacientes apresentavam hemorragias na pele e nas mucosas, falecendo entre o quinto e o sexto dia. Com freqüência, a varíola deixava cicatrizes na pele, especialmente na face. Outras seqüelas mais raras eram cegueira e deformidades nos membros. Entre os ortopoxvirus, figuram ainda os vírus da varíola do camundongo, de camelos, de macacos, de bovinos (cowpox) e da vacínia (um mutante utilizado na vacina). Os três últimos podem infectar o homem.

Os registros mais antigos da varíola foram encontrados em egípcios mumificados há cerca de 3 mil anos. Do Vale do Nilo, espalhou-se para a Índia, chegando à China no século I d.C. As primeiras descrições da doença são do médico chinês Ko Hung (340 d.C), de Ahrun de Alexandria (622) e do persa Abui-Bekr Al-Razi (Rhazes), em seu livro De Pestilentia, no século X. É possível que a moléstia tenha sido a causa de epidemias como a Praga de Atenas (430 a.C.), a Praga Antonina (165) e pela devastação do exército etíope na Guerra dos Elefantes em Meca (568). A primeira referência à doença na Europa foi feita por Gregório de Tours, cronista do reino franco, em 582, relatando a morte de dois jovens príncipes por uma moléstia que chamou de corales.

Ela retornou às terras européias no século VIII, junto com os sarracenos, e espalhou-se pelo continente, levada pelos cruzados, provocando epidemias devastadoras. Epidemias de varíola na Inglaterra no século XVII apresentavam taxas de mortalidade equivalentes a um sexto da natalidade. Calcula-se que somente no século XVIII, quando era endêmica na maior parte do mundo, a doença matou mais de 60 milhões de pessoas.

O faraó Ramsés V que morreu por volta de 1500 a.C, sobreviveu à varíola, o que é testemunhado claramente pelas marcas das lesões (pústulas) deixadas em sua pele e preservadas pela mumificação. O vírus da varíola foi pela primeira vez assim designado no ano 570 d.C., por Bishop Marius de Avenches, na Suíça. A palavra deriva do latim, varius ou varus, que significa bexigas. Esta doença afetou em muito o desenvolvimento de civilizações ocidentais e foi uma das grandes pragas ultrapassando a peste negra, a cólera e a febre amarela no seu impacto. Foi também a causadora da queda de alguns impérios.

Com o crescimento da agricultura no nordeste africano – Egito e Mesopotâmia, por volta do ano 9000 a.C., houve uma aglomeração das populações humanas, o que permitiu a transmissão da doença de pessoa para pessoa, sendo mais tarde levada por mercadores para a Índia, Ásia e Europa. Em 1350 a.C., a primeira epidemia de varíola ocorreu durante a guerra entre os Egípcios e os Hititas, causando o declínio da civilização Hitita. Também na China, por volta do ano 1122 a.C., foi descrita uma doença aparentada com a varíola. Em documentos chineses datados do período entre 37 e 653 d.C., há relatos sobre a varíola e também o sarampo e a raiva (hidrofobia).

Em algumas culturas antigas, a letalidade da doença era tão elevada entre as crianças que estas só recebiam o nome se sobrevivessem à doença. A doença até então era desconhecida no Novo Mundo e foi introduzida pelos Espanhóis e Portugueses, tornando-se uma espécie de arma biológica que ajudou a provocar a queda dos impérios Asteca e Inca. Estima-se que cerca de 3,5 milhões de Astecas morreram vitimados pela doença num espaço de dois anos.

“Para mitigar a febre, você asperge, do pote cheio, com a vassoura, a água da imortalidade.(…) Você refresca o calor escaldante das pústulas; Shitala, eu te venero.” Oração indiana

ATRAVESSANDO MUNDOS


“Muitos morreram com a pegajosa, compacta, dura doença dos grãos.” Eduardo Galeano

A varíola chegou às Américas junto com os espanhóis e, em contato com populações sem nenhuma imunidade, assumiu proporções trágicas. Ajudou Cortez, dizimando quase metade dos exércitos astecas, inclusive o rei Cuitlahuac, que substituíra Montezuma no comando. Espalhou-se para o sul e norte, devastando o império inca e matando o imperador Huayna Chupauc, seu herdeiro e vários generais.

A varíola foi vital para a colonização dos Estados Unidos e do Canadá, devastando as tribos indígenas a partir do século XVII. É provável que algumas dessas epidemias tenham sido deliberadamente causadas pelos brancos, conforme comprova esta correspondência entre Sir Jeffrey Amherst, comandante-em-chefe das forças britânicas na América do Norte, e o coronel Henry Bouquet, em 1763, na época da rebelião no Potomac:

“Não seria possível inventar um meio de difundir a varíola entre estas tribos de índios desleais? Neste momento, devemos utilizar cada estratagema em nosso poder para reduzir seu número.” “Tentarei inocular [ ] fazendo cair em suas mãos alguns cobertores e tomando cuidado para não me contaminar.”

A primeira epidemia de varíola no Brasil começou em 1563, na Ilha de Itaparica, na Bahia, e chegou até São Paulo, matando pelo menos 30 mil índios. Em 1599, devastou o Rio de Janeiro, fazendo mais de 3 mil vítimas, entre indígenas e negros. Meseba-ayba, a doença maligna – era como os tupis chamaram a varíola. No final do século XIX, foram registrados os primeiros surtos de varíola minor na Flórida (EUA) e África do Sul. A forma mais branda da doença logo se espalhou pelo mundo, tornando-se endêmica em várias partes da África, nos Estados Unidos e no Brasil.

DOENÇA DA INFÂNCIA, A VARÍOLA NÃO POUPAVA NINGUÉM

Mas a miséria lhe dava uma face mais trágica. Era nos bairros populares que a devastação se fazia maior, favorecida pelas péssimas condições de higiene e pela promiscuidade. Entre os aristocratas, a facilidade de isolamento durante as epidemias fazia com que fossem infectados mais tarde, muitas vezes já adultos.

Num mundo regido pelas aparências, os estigmas da varíola despertavam um terror maior do que a própria morte. Do dia para a noite, casamentos e ambições se dissipavam na escuridão dos conventos, onde um grande número de mulheres, antes desejáveis, escondia seus rostos marcados dos olhares indiscretos.

A varíola matou imperadores chineses, czares russos, monarcas europeus e califas árabes. Morreram da doença Luís XV da França, Mary II, rainha da Inglaterra, o imperador José I da Áustria, rei Luís I da Espanha, czar Pedro II da Rússia e d. Pedro Carlos, genro de d. João VI. Muitos sobreviveram. Alguns, com mais sorte, quase sem cicatrizes, como Luís XIV, outros bem marcados, como a rainha Elizabeth I e Mirabeau. Tiveram varíola ainda Catarina de Médicis, Chateaubriand e George Washington.

SOB O OLHAR DA DIVINDADE


“Atotô, Omolu, pai da bexiga negra, da força e da saúde, atotô, meu pai Obaluaê”. Jorge Amado

Face a uma moléstia tão devastadora, o remédio era recorrer aos deuses. Shitala Mata, a deusa da varíola, abençoava os hindus, enviando-lhes a moléstia. Trazer suas marcas representava um sinal da graça divina. Morto pelos hunos em 452, logo após recuperar-se de um ataque da doença, São Nicásio, bispo de Rheims, era reverenciado na Idade Média como padroeiro das vítimas da varíola. T’ou-Shen Niang-Niang era a deusa da varíola na China.

Já os japoneses recorriam a Chinzei Hachiro Tametomo, um herói mítico do século XII. Para os africanos, Xapanã (Sapona), senhor das doenças contagiosas e da cura, enviava a varíola a seus inimigos. Chamado de Obaluaê (Senhor da Terra) ou de Omolu (Filho do Senhor), chegou ao Brasil trazido pelos escravos. Os iaôs (filhos) de Omolu cobrem-se de palha desde a cabeça, ocultando o rosto, e brandem xaxarás, espécie de vassoura, que representa a propagação e a cura da bexiga. Homenageia-se o orixá com pipoca. No Brasil, o sincretismo religioso associou Omolu a São Lázaro que, de santo protetor dos leprosos, passou a velar também pelos bexiguentos. Acredita-se que a crença em Omolu foi um dos motivos para a participação da população negra na Revolta da Vacina.

MAGIA E POÇÕES

“Corri mais, corri daquela casa, daquele laboratório de horror em que o africano deus selvagem da bexiga, Obaluaê, escancarava a face deglutindo pus.” João do Rio

ERA FÉRTIL E VARIADO O RECEITUÁRIO CONTRA A VARÍOLA

Havia remédios para evitar a doença, para tratar os doentes e para remover as cicatrizes. O médico árabe Al-Razi (Rhazes) recomendava os poderes preventivos da cânfora durante as epidemias. Empregava-se ainda o óxido de mercúrio, a água de alcatrão e a tintura de mirra. Duas medidas preventivas foram mais difundidas. Uma era a retirada do sangue do cordão umbilical, para evitar que as impurezas uterinas – para muitos, causa da varíola – fossem transmitidas à criança. Outra foi o uso de bezoares – pedrinhas encontradas no estômago ou nos intestinos de alguns animais ruminantes. Instalada a doença, a classe médica dividia-se. Uns procuravam expulsar a doença com calor, colocando o paciente em ambiente superaquecido e usando bebidas sudoríferas, como cidra com canela e pimenta, vinho quente e licores.

Outros defendiam métodos refrescantes, como exposição dos doentes a correntes de ar, tisanas frias, eméticos e sangrias. Ishinho, uma obra médica japonesa de 982 d.C., foi o primeiro livro a mencionar o tratamento vermelho, isto é, a colocação de tecidos, materiais e luzes de cor vermelha nos quartos de pacientes com varíola. Empregado também na China, Índia, Turquia e na Geórgia asiática, chegou à Europa no século XII.

Ao adoecerem, Carlos V, da França, e Elizabeth I, da Inglaterra, usaram trajes vermelhos e cobertas vermelhas. A eritroterapia persistiu até a década de 30 e teve como um de seus defensores o dermatologista Niels Finder, prêmio Nobel. Os jesuítas recomendavam um cordial, composto por flor de papoulas vermelhas, bagas de sabugo, fezes de cavalo bem recentes e bezoártico do Curvo – um preparado que continha pós de bezoar e de chifre de unicórnio, olhos de caranguejo, raízes e folhas de ouro fino, entre outras coisas. Para as cicatrizes, as opções eram suco de miolo de coelho assado, pós de alvaiade e de pedra-ume.

O CASTIGO DOS DEUSES

“Para o povo, porém, a bexiga de canudo era uma espécie mais virulenta ainda de varíola, a mais terrível, dita a mãe da bexiga, de todas as outras, da negra, da branca, do alastrim, da varicela.” Jorge Amado

Na literatura, as cicatrizes e o terror que estas inspiravam às mulheres transformou a varíola na punição exemplar para aquelas que se desviavam dos padrões morais vigentes. Em As Relações Perigosas, Choderlos de Laclos pune Valmont com a morte em duelo, mas reserva à marquesa de Merteuil um destino bem mais trágico: “…seria uma felicidade para ela morrer de varíola. Salvou-se, é verdade, mas horrivelmente desfigurada; e perdeu também um olho. (…) disseram-me que está realmente medonha.” Émile Zola não só mata Nana de varíola, mas destrói-lhe a beleza, responsável pela ruína de tantos homens: “Vênus estava em decomposição. Parecia que o vício contraído por ela nos córregos, sobre as carniças toleradas, esse fermento com o qual havia envenenado um povo, acabara de lhe subir ao rosto e a havia feito apodrecer.”

Jorge Amado mostra a bexiga como um velho conhecido da população, sempre assombrando as terras da Bahia. Devastando os bairros mais miseráveis, retrata o descaso das autoridades com os mais pobres e a precariedade dos serviços de saúde. Em Tereza Batista Cansada de Guerra, é bexiga negra, “determinada a matar, fazendo-o com maestria, frieza e malvadez, forte, feia e ruim”, mas que acaba derrotada pela solidariedade e coragem dos marginalizados. Em Capitães de Areia, Omolu manda a varíola para se vingar dos ricos, mas como estes estavam vacinados, transforma-a em “alastrim, bexiga branca e tola”. “…que sabia Omolu de vacinas? Era uma pobre deusa das florestas da África. (…) Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O lazareto é que os matava.” Numa crônica em que conta uma visita ao Hospital São Sebastião, “grande forno da peste sangrenta”, João do Rio relata seu horror, quando se defronta com a desfiguração causada pela varíola:

“Eu tinha diante de mim um monstro. As faces inchadas, vermelhas e em pus, os lábios lívidos… Era como se aquela face fosse queimada por dentro e estalasse em empolas e em apostemas a epiderme. Quis recuar, quis aproximar-me (…) Há epidemia, oh! sim, há epidemia! E eu tenho medo, meu amigo, um grande, um desastrado pavor…”


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