História da Semana de Arte Moderna

O Modernismo Brasileiro: O século XX inicia-se no Brasil com muitos fatos que vão moldando a nova fisionomia do país. Observa-se um período de progresso técnico. Ao lado disso, outro fato contribuiu para fazer o Brasil crescer e alterar sua estrutura social: a espantosa massa de imigrantes que em apenas oito anos chega a quase 1 milhão de novos habitantes. Esses tempos novos vivem, então, “à espera de uma arte nova que exprima a saga desses tempos e do porvir”.

A Semana de 22

Essa arte nova aparece inicialmente através da atividade crítica e literária de Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e alguns outros artistas que vão se conscientizando do tempo em que vivem. Oswald de Andrade, já em 1912, começa a falar do Manifesto Futurista, de Marinetti, que propõe “o compromisso da literatura com a nova civilização técnica”.

Mas, ao mesmo tempo, Oswald de Andrade alerta para a valorização das raízes nacionais, que devem ser o ponto de partida para os artistas brasileiros. Antes dos anos 20, são feitas em São Paulo duas exposições de pintura que colocam a arte moderna de um modo concreto para os brasileiros: a de Lasar Segall, em 1913, e a de Anita Malfatti, em 1917.

A exposição de Anita Malfatti provocou uma grande polêmica com os adeptos da arte acadêmica. Dessa polêmica, o artigo de Monteiro Lobato para o jornal O Estado de S. Paulo, intitulado “A propósito da Exposição Malfatti”, publicado na seção “Artes e Artistas” da edição de 20 de dezembro de 1917, foi a reação mais contundente dos espíritos conservadores.

No artigo publicado nesse jornal, Monteiro Lobato, preso a princípios estéticos conservadores, afirma que “todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da latitude”. Mas Monteiro Lobato vai mais longe ao criticar os novos movimentos artísticos. Assim, escreve que “quando as sensações do mundo externo transformam-se em impressões cerebrais, nós ‘sentimos’; para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em ‘pane’ por virtude de alguma grave lesão. Enquanto a percepção sensorial se fizer normalmente no homem, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá ‘sentir’ senão um gato, e é falsa a ‘interpretação’ que do bichano fizer um totó, um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes” .

Em posição totalmente contrária à de Monteiro Lobato estaria, anos mais tarde, Mário de Andrade. Suas idéias estéticas estão expostas basicamente no “Prefácio Interessantíssimo” de sua obra Paulicéia Desvairada, publicada em 1922. Aí, Mário de Andrade afirma que:

“Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório – questão de moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural – tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir natureza, nem este é seu fim. Todos os grandes artistas, ora conscientes (Rafael das Madonas, Rodin de Balzac, Beethoven da Pastoral, Machado de Assis do Braz Cubas) ora inconscientes (a grande maioria) foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico será tanto mais artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural. Outros infiram o que quiserem. Pouco me importa”.

Essa divisão entre os defensores de uma estética conservadora, os acadêmicos, e os de uma renovadora, os modernistas, prevaleceu por muito tempo e atingiu seu clímax na Semana de Arte Moderna realizada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Estes eventos da Semana de Arte Moderna foram o marco mais caracterizador da presença, entre nós, de uma nova concepção do fazer e compreender a obra de arte.

O Expressionismo no Brasil

Antes da explosão do Movimento Modernista de 1922, o Brasil teve com o lituano Lasar Segall (1891-1957) seu primeiro contato com a arte mais inovadora que era feita na Europa.

Em 1924, Lasar Segall passou a residir definitivamente em São Paulo. A partir daí, sua pintura assumiu uma temática brasileira: seus personagens agora são mulatas, prostitutas e marinheiros; sua paisagem, favelas e bananeiras. São exemplos as telas Mãe Preta e Bananal.

A Arte Brasileira em Novos Rumos

A exposição que Lasar Segall realizou entre nós em 1913 não provocou nenhuma polêmica, pois seus trabalhos foram vistos como a produção de um estrangeiro. Mas com a de Anita Malfatti (1896- 1964), pintora brasileira, a reação foi totalmente diferente. Essa artista teve uma importância muito grande nos acontecimentos que antecederam o Movimento Modernista no Brasil de 1922.

Entretanto, sua exposição mais famosa é a de 1917. Foi esta exposição que provocou o artigo de Monteiro Lobato – citado no início deste capítulo -, contendo severas críticas à arte de Anita. Nessa mostra figuraram, por exemplo, A Estudante Russa, O Homem Amarelo, Mulher de Cabelos Verdes e Caboclinha, trabalhos que se tornaram marcos na pintura moderna brasileira, por seu comprometimento com as novas tendências.

As críticas desfavoráveis a Anita Malfatti, porém, fizeram com que muitos artistas se unissem à pintora e, juntos, trabalhassem para o desenvolvimento de uma arte brasileira livre das limitações que o academicismo impunha. Neste sentido, Anita acabou tendo uma importância histórica muito grande para as artes do Brasil, pois, na medida em que foi criticada, polarizou a atenção dos artistas inovadores e revelou que sua arte apontava para novos caminhos, principalmente para os novos usos da cor. Como dizia a própria artista à Revista Anual do Salão de Maio, em 1939: “Os objetos se acusam só quando saem da sombra, isto é, quando envolvidos na luz. (…) Nada neste mundo é incolor ou sem luz” .

Di Cavalcante

Depois das exposições de Lasar Segall e Anita Malfatti, os artistas mais inovadores começaram a se reunir em torno da idéia da realização de uma mostra coletiva que apresentasse ao público o que se fazia de mais atualizado no país.

Entre esses artistas estava Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo (1897-1976), pintor conhecido como Di Cavalcanti, um dos grandes incentivadores da realização da Semana de Arte Moderna de 1922.

As obras deste pintor ficaram muito conhecidas pela presença da mulher mulata – uma espécie de símbolo. Exemplo disso é sua obra Nascimento de Vênus.
O Cubismo Brasileiro

Entre as pinturas expostas na Semana de 22, estavam algumas de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), consideradas as primeiras realizações de um artista brasileiro dentro da estética cubista. Participou da Semana de Arte Moderna com dez trabalhos.

Entre as tendências artísticas que influenciaram a obra de Vicente do Rego Monteiro está, sem dúvida, o Cubismo, que foi trabalhado pelo pintor de um modo muito próprio. Exemplos disso são as telas de temas religiosos, como a Crucifixão, Flagelo e Pietà. Nessas obras predominam as linhas retas e o corpo humano é reduzido a formas geométricas, o que sugere ao espectador a percepção de volumes.

A Transmutação

Com Tarsila do Amaral (1886-1973) a pintura brasileira começa a procurar uma expressão moderna, porém mais ligada às nossas raízes culturais. Apesar de não ter exposto na Semana de 22, Tarsila colaborou decisivamente para o desenvolvimento da arte moderna brasileira, pois produziu uma obra indicadora de novos rumos. Em 1923 a artista voltou à Europa. Passou pela influência impressionista e, a seguir, encontrou o Cubismo.

No ano seguinte, ou seja, em 1924, Tarsila estava novamente no Brasil. Foi quando iniciou a fase que ela própria chamou de pau-brasil. Segundo o crítico Sérgio Milliet, as características dessa fase são” as cores ditas caipiras, rosas e azuis, as flores de baú, a estilização geométrica das frutas e plantas tropicais, dos caboclos e negros, da melancolia das cidadezinhas, tudo isso enquadrado na solidez da construção cubista”

Quatro anos mais tarde, em 1928, Tarsila do Amaral deu início a uma nova fase: a antropofágica. A ela pertence a tela Abaporu, cujo nome, segundo a artista, é de origem indígena e significa “antropófago” Foi a partir dessa tela que Oswald de Andrade elaborou a teoria da antropofagia para a arte moderna do Brasil, que resultou no Manifesto Antropofágico, publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, em 1928.

A teoria antropofágica propunha que os artistas brasileiros conhecessem os movimentos estéticos modernos europeus, mas criassem uma arte com feição brasileira. De acordo com essa proposta, para ser artista moderno no Brasil não bastava seguir as tendências européias, era preciso criar algo enraizado na cultura do país.


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