História das Primeiras Cidades do Brasil

A economia colonial apresentava-se segmentada em uma série de regiões, cada uma vinculada à economia da metrópole (ou à economia dos países industrializados). Estas regiões tinham por pólo, geralmente, um núcleo urbano que desempenhava, em relação ao todo, funções comerciais, administrativas, religiosas, etc.
Veja como a historiografia discute a formação deste núcleos urbanos.
Erguida no alto de uma escarpa, entre a Baía de Todos os Santos e os morros, Salvador foi a primeira cidade planejada do Brasil, construída nos moldes das cidades portuguesas, com ruas estreitas, curvas e dispostas perpendicularmente umas às outras. A exigência de defesa determinou nos primeiros anos a predominância de muralhas. A cidade cresceu e “na passagem do século XVII para o XVIII, Salvador já reunia 100.000 moradores”. (SANTOS, 1994, p.20) Na vida urbana da economia colonial, as funções não-econômicas (administrativas, religiosas, militares), via de regra, superavam, em importância, as econômicas, que se reduziam quase só ao comércio. A cidade colonial era o entreposto das mercadorias destinadas à exportação e das mercadorias importadas.

Salvador foi fundada em 29 de março de 1549. Foi a capital brasileira de 1549 a 1763. A posição estratégica da “Baía de Todos os Santos” criou ligações entre Portugal, Brasil e África. As condições naturais, que propiciavam aos navegadores portugueses a parada segura de suas embarcações, foram decisivas na sua escolha como local para a primeira capital do Brasil. Seu desenvolvimento se deveu à primeira atividade agrícola de peso, a cana-de-açúcar, no Recôncavo Baiano e também na Zona da Mata do Nordeste.

É no que se resumia, por exemplo, a vida econômica de Recife até o fim do século XIX: escoava o açúcar dos engenhos e o algodão e distribuía os artigos estrangeiros importados.

Em 1630, os holandeses empreenderam a conquista de Pernambuco, a mais rica colônia açucareira de Portugal. O fato teve grande significado para a história de Recife, que, a partir deste momento, tornouse o centro de todo Nordeste açucareiro.
Os holandeses resolveram fortificar-se em Recife, ampliaram as construções, fizeram aterros na bacia do Beberibe e construíram, no lugar em que antes havia apenas um porto e um pequeno povoado, uma verdadeira cidade, que contaria então com cerca de 2.000 casas e 8.000 habitantes. Os holandeses não procuraram intervir na cultura nem na fabricação do açúcar. Interessava-lhes mais assegurar o seu comércio. Daí o caráter nitidamente urbano da colonização holandesa, que diferenciava-se da colonização portuguesa, cuja ênfase estava na ocupação agrária.
A urbanização de Recife se iniciou em 1637 com um plano bem traçado pelos holandeses para melhoramento da cidade, priorizando um sistema defensivo, construção de pontes para viabilizar as comunicações e até um Jardim Botânico.
Em meados do século XVII, Recife era possivelmente a segunda cidade brasileira e uma das mais modernas do continente do ponto de vista urbanístico.
Veja o que o historiador diz:

Texto 4
Esse progresso urbano era ocorrência nova na vida brasileira, e ocorrência que ajuda a melhor distinguir, um do outro, os processos colonizadores de “flamengos” e portugueses. Ao passo que em todo o resto do Brasil as cidades continuavam simples e pobres dependências dos domínios rurais, a metrópole pernambucana “vivia por si”. Ostentavam-se nela palácios monumentais como o de Schoonzicht e o de Vrijburg. Seus parques opulentos abrigavam os exemplares mais vários da flora e da fauna indígenas.
Neles é que os sábios Piso e Macgraves iam encontrar a mão material de que precisavam para a sua Historia Naturalis Brasilae e onde Franz Post se exercia em transpor para a tela as cores magníficas da natureza tropical. Institutos científicos e culturais, obras de assistência de toda a ordem e importantes organismos políticos administrativos (basta dizer que em 1640 se reunia em Recife o primeiro Parlamento de que há notícia no hemisfério ocidental) davam à sede do governo da Nova Holanda um esplendor que a destacava singularmente no meio da miséria americana. Para completar o quadro, não faltavam sequer os aspectos escuros, tradicionais da vida urbana de todos os tempos: já em 1641, a zona do porto de Recife constituía, para alguns, verdadeiro “antro de perdição”.

A ocupação do solo mineiro, região mais central do Brasil, esteve ligada diretamente aos descobrimentos auríferos do fim do século XVII e início do século XVIII, que atraiu milhares de pessoas, as quais foram responsáveis pela formação dos primeiros núcleos urbanos na região das minas.

A produção mineira estava geograficamente condicionada à localização das jazidas auríferas e os núcleos urbanos
– que surgiram em função desta atividade – adquiriram, geralmente, caráter especializado de lugar de moradia dos mineradores e da comercialização de produtos. A importância de cidades mineiras, como Mariana, Ouro Preto, Sabará, São João Del Rei, Tiradentes, etc., limitava-se à quantidade de ouro que podia ser extraída em suas proximidades.
Todas as cidades vinculadas puramente à mineração, mostraram-se desligadas daquelas qualidades
de posição e situação que eram de tamanha importância para outras cidades. Aspectos como uma localização
centralizada, acessibilidade, terrenos favoráveis para ruas e edifícios foram considerados, pelas elites coloniais, como de menor valor.
Essas cidades preservaram construções que constituem parte do patrimônio artístico, histórico e cultural
brasileiro. Ao conhecê-las, você irá deparar-se com verdadeiras obras de arte que expressam toda a riqueza da arquitetura, da pintura e da escultura do estilo barroco.
De acordo com o funcionamento especializado da economia mineira, o ouro se escoava para as regiões que abasteciam a área de mineração. Desde o século XVII, estabeleceram-se vínculos comerciais entre zonas de mineração e a Bahia, São Paulo e, principalmente, Rio de Janeiro – o grande escoadouro do metal precioso e o mais importante porto de importação dos produtos além-mar consumidos pelas populações mineiras.
As necessidades de escoamento e de fiscalização da produção mineral deram ao Rio de Janeiro – que se tornou a segunda capital da colônia, em 1763 – as condições de desenvolvimento, ampliadas com a chegada da família real portuguesa, em 1808.
A vinda da Corte Portuguesa para o Brasil estimulou o crescimento da cidade do Rio de Janeiro. A população aumentou, surgiram novos prédios, e o comércio se tornou mais variado. As terras vizinhas passaram a se desenvolver, com melhoramentos urbanos.
Transferiram-se para o Brasil todos os órgãos da Administração Pública e da Justiça; criaram-se academias, hospitais, quartéis, a Biblioteca Real, a Academia de Belas Artes e o Jardim Botânico, tornando-se também o Rio de Janeiro ponto de partida de inúmeras expedições científicas.
Mas, apesar do aparente desenvolvimento os habitantes do Rio de Janeiro enfrentavam muitas dificuldades, relativas ao saneamento básico, as quais podiam ser verificadas também em várias cidades do Brasil colonial.
A produção dos espaços pelos que ali habitavam se deu de forma precária, muitas vezes comprometendo a qualidade de vida e o ambiente natural. As ruas não pavimentadas recebiam o lixo atirado das residências. A situação era agravada, porque escravos mortos eram atirados nos monturos de lixo e as chuvas torrenciais enchiam as ruas de lama. Nas praias, rios e lagoas, dejetos eram depositados pelos “tigres” (escravos que tinham a pele listrada pelos detritos que escorriam dos cestos de palha carregados às costas).
Sem saneamento, seus habitantes sofriam de algumas epidemias, como: varíola, cólera, febre amarela; e, em função disso, a mortalidade era alta. A implantação de saneamento básico e de serviços urbanos nunca foi preocupação da Coroa Portuguesa.

Vida urbana e industrialização no Brasil Quando a corte portuguesa foi transferida para o Brasil, em 1808, D. João estabeleceu algumas mudanças em relação ao desenvolvimento das manufaturas brasileiras. Observe:
Revogou a lei de 1785, que proibia a instalação de atividades industriais em solo colonial;
concedeu facilidades aduaneiras de importação de matérias-primas necessárias para as fábricas brasileiras;
isentou de imposto de exportação os produtos manufaturados no país.

Ainda assim, a industrialização brasileira não se desenvolveu na época. Isso porque, em 1810, D. João firmou um tratado fixando em 15% as taxas para os produtos importados da Inglaterra, mais baratos até do que os que vinham de Portugal, cuja tarifa era de 16%. Mercadorias das outras nações eram taxadas em 24%.
Diante dos enormes privilégios oferecidos as manufaturas inglesas, o estabelecimento de indústrias no Brasil era prejudicado e sistematicamente desestimulado, pois tornava-se praticamente impossível competir com a qualidade e o preço dos artigos daquele país.
Apesar desta circunstância tão desfavorável, houve, durante a primeira metade do século XIX, várias tentativas de implantação de fábricas. Conheça alguns exemplos citados pela historiografia:

Texto 5
De uma perspectiva histórica, o tratado de 1810 teve importantes implicações sobre o nosso desenvolvimento manufatureiro, pois atuou no sentido de retardar experiências, viáveis ou não economicamente, que de outro modo ter-se-iam já incorporado à nossa formação industrial.

Texto 6
Em 1819, já havia uma tecelagem no Rio de Janeiro, sendo que a primeira fábrica de tecidos instalou-se em Vila Rica, em 1814. No relatório da Comissão de Inquérito Industrial, publicado em 1882, afirma-se que a primeira fábrica regular de fiação e tecidos de algodão foi fundada em Pernambuco logo depois da independência. Em 1824, outra fábrica se instala em Minas Gerais. Em 1826, no Andaraí Pequeno, Rio de Janeiro, surgira uma estamparia; em seguida, 1841, também no Andaraí Pequeno, estabeleceuse a fábrica de tecidos de propriedade de Frederico Guilherme.
No século XIX, a indústria metalúrgica ainda era constituída, na sua maior parte, por pequenas empresas. A primeira fundição do Rio de Janeiro data de 1815. Em 1817, surgia a Fundição do Cabrito, na Bahia, e em 1819, reorganizou-se a fábrica de ferro São João de Ipanema, em São Paulo.
A indústria da chapelaria também era uma das mais antigas. Data de 1825, no Rio de Janeiro. Em 1846, já havia seis fábricas deste ramo só na Corte, número que chegaria a 21 em 1866.

Até 1850, os ritmos das transformações, pelas quais a sociedade brasileira passava, eram bastante lentos. As cidades, em meio às heranças do sistema colonial e à presença do escravismo, eram ainda pequenas em sua maioria e contavam com apenas uma pequena proporção da população. Eram pacatas e provincianas, suas fisionomias urbanas bastante restritas, construídas de casa de taipa ao longo de ruas lamacentas, sem iluminação, onde mulas de carga e escravos tropeçavam.
A partir da segunda metade do século XIX, a economia brasileira passou por um processo de transformação influenciada pelo desenvolvimento da lavoura cafeeira. O crescimento da produção e exportação do café gerou muitos lucros. Estes foram investidos em atividades complementares necessárias à expansão da cafeicultura, como, por exemplo: investimentos nos portos, em companhias de seguros, organização bancária e melhoria dos meios de transporte (principalmente na construção de ferrovias), essenciais para o escoamento da grande produção.

Texto 7
Assim, em 30 de abril de 1854, foi inaugurada a primeira estrada de ferro no Brasil – a Estrada de Ferro Petrópolis, ou Estrada de Ferro Mauá.
Esse trem inaugural composto por três carros de passageiros e um de bagagem, foi rebocado por uma locomotiva fabricada por Fairbairn & Sons (Inglaterra), batizada “Baronesa”, cujo nome constitui uma homenagem feita à esposa do Barão de Mauá.

Foram também os lucros gerados pela cafeicultura que possibilitaram o capital necessário para a criação da indústria no Brasil. Com o dinheiro proveniente das atividades cafeeiras foi possível a importação de máquinas e equipamentos, ferramentas e algumas matérias-primas.
“É por isso que se pode dizer que a industrialização que se deu no Brasil entre 1885 e 1930 não passou de uma conseqüência da reorganização capitalista da cafeicultura.” (SINGER apud HOLLANDA, 2004, t.3, v.4, p.216).
Além do crescimento da economia cafeeira, outro fator importante para o desenvolvimento industrial na segunda metade do século XIX foi a substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado livre dos imigrantes europeus. Esses imigrantes, que inicialmente vieram trabalhar nas lavouras de café, foram a principal mão-de-obra da indústria nascente, e também constituíram o mercado consumidor dos produtos por ela produzidos.

Texto 8
Não obstante, o processo de industrialização foi imensamente influenciado pela onda de imigração européia. Os imigrantes, na grande maioria, eram jovens, preponderantemente do sexo masculino e, portanto, imediatamente produtivos. Eles (os imigrantes) haviam sido, amiúde, habitantes de cidades ou tinham, pelo menos, experiência de trabalho assalariado e eram sensíveis aos seus incentivos. Os imigrantes, freqüentemente mais alfabetizados do que a classe brasileira, inferior, trouxeram habilidades manuais e técnicas que raro se encontravam no Brasil. Visto que uma das principais falhas da sociedade agrária brasileira consistia em não incentivar a aquisição das primeiras letras nem das habilidades artesanais, a importação desse capital humano consistiu um golpe tremendo, mais valioso do que as reservas de ouro ou mesmo do que a maquinaria.

Até 1930, as indústrias brasileiras voltaram-se principalmente à produção de bens de consumo não-duráveis, como tecidos e produtos alimentícios. No entanto, como não havia produção interna de bens de capital (máquinas e equipamentos industriais), a indústria nacional nasceu dependente da tecnologia estrangeira.
As indústrias localizavam-se de modo disperso pelo território brasileiro, surgindo, principalmente, nos maiores aglomerados urbanos devido à concentração nesses espaços de serviços e de facilidades administrativas ligadas à exportação (meios de transporte e comunicação, estabelecimentos comerciais e financeiros, etc.).
Leia este fragmento historiográfico:

Texto 9
O café proporcionou a aglutinação de uma boa porção do território ao redor de São Paulo, que se tornou, por isso, o centro de acumulação do capital industrial. As zonas de colonização alemã e italiana, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, passaram a encontrar na área cafeicultora um escoadouro para sua produção agropecuária. Como resultado, surgiu no Sul, sobretudo em Porto Alegre, um significativo impulso industrializador.
O mesmo aconteceu no Nordeste, com a substituição dos velhos engenhos artesanais por usinas modernas na agroindústria açucareira. Desenvolveu-se aí um certo campo de acumulação de capital industrial, extensivo à indústria têxtil, que começou por produzir a sacaria para o açúcar. Mas, a perda do mercado externo, a partir de 1900, solapou o dinamismo da industrialização no Nordeste, que passou a sofrer atraso crescente em relação ao centro-sul do país.

O crescimento das indústrias levou ao processo de urbanização, que foi exigindo a realização de uma série de obras, como: instalação de energia elétrica, limpeza pública, serviços de saneamento básico (água, esgoto), linhas de telégrafo. Após 1870, os condicionamentos que o capital industrial nascente provocava sobre o crescimento e a fisionomia das cidades já podiam ser notados. Observe alguns números no quadro:

Quadro 1
Em 1872, apenas três capitais brasileiras contavam com mais de 100.000 habitantes: Rio de Janeiro (274.972), Salvador (129.109) e Recife (116.671).
Somente Belém (61.997) contava com mais de 50.000 residentes. São Paulo, então, tinha uma população de 31.385 pessoas. Em 1890, eram três as cidades com mais de 100.000 moradores: Rio de Janeiro com 552.651, Salvador com 174.412 e Recife com 111.556.
Três outras cidades passavam da casa dos 50.000 (São Paulo: 64.934; Porto Alegre: 52.421; Belém: 50.064)
Em 1900, havia quatro cidades com mais de cem mil vizinhos e uma beirava essa cifra: Rio de Janeiro – 691.565; São Paulo – 239.820; Salvador – 205.813; Recife -113.106; Belém – 96.560.
Com mais de 50.000 residentes ou perto disso estavam cinco capitais: Porto Alegre – 73.674; Niterói – 53.433; Manaus – 50.300; Curitiba – 49.755; Fortaleza – 48.369.

Texto 10
Nota-se que o crescimento no período de apenas sete anos (1886-93) foi superior a 300%, ligado certamente ao impulso vertiginoso da imigração européia, à abolição da escravatura, e ao desenvolvimento das forças produtivas, a partir da proclamação da República. Entre as melhorias urbanas já existentes em 1890, devem-se lembrar: iluminação pública a gás em substituição aos antigos lampiões de querosene (1872); instalação de serviço municipal de águas e esgotos (Cia. Cantareira, 1877); nova e ampla penitenciária (1877); novo matadouro e novo mercado central(1887-1890); ampliação dos serviços da Santa Casa de Misericórdia e criação do Asilo de Mendicidade (1885); serviços de bonde de tração animal (1872); primeiro sistema de loteamento, arruamento e construções (código de 1886); sistema ferroviário (desde 1867); calçamento de paralelepípedo de granito (ligado à produção das primeiras pedreiras, 1873).

Nesse ambiente chamava a atenção o animado movimento de veículos. O tráfego era tal que, em 1873, a municipalidade designou locais específicos para estacionamento:
Pátio do Colégio; Largo de São Gonçalo; Largo São Francisco e Largo da Luz. Essa é a época dos novos bondes movidos à tração animal, que acompanhavam a evidente expansão territorial e alteravam a pintura local.
Em 1887, existiam sete linhas com 25 quilômetros de trilhos, 319 animais e 43 carros, que transportavam 1,5 milhão
de passageiros por ano. De fato, a exploração dos bondes elétricos só começou na década de 1890, sem que os velhos modelos tenham sido substituídos de pronto. A grande novidade do início do século atual eram, no entanto, os primeiros automóveis, que, apesar de poucos e muito barulhentos, causaram verdadeiros tumultos na cidade.

Dentro do contexto de transformações que estavam ocorrendo no país, em geral, decorrentes do processo de industrialização e urbanização, é necessário situar uma questão significativa: a das habitações populares.
A introdução maciça de capitais outrora investidos nas áreas rurais causou a valorização do espaço urbano, abrindo caminho para a especulação imobiliária. O aumento crescente do valor fundiário empurrava os valores e aluguéis para cima e reduzia as possibilidades de uma melhor habitação para os operários. A alternativa para se livrar dos altos aluguéis foi a busca de moradia nos bairros operários.
Os mocambos de Recife, as favelas cariocas e os cortiços de São Paulo foram algumas das formas características de habitação dos operários e de outros setores explorados. Construções simples de madeira, ou outros materiais baratos, situadas em terrenos íngremes ou alagadiços, em morros ou várzeas, essas habitações populares constituíram um espaço típico na vida das massas trabalhadoras.

Texto 12
Desde os fins do século XIX, o operariado se aloja precariamente na cidade de São Paulo. Os bairros operários e pobres apresentavam aspectos semelhantes: ruas inteiras de casas feitas em série, habitações pobres, coletivas, pequenas oficinas, pequenas ou grandes fábricas, pequeno comércio, sistema deficiente de água e esgoto. Nos bairros onde havia pobreza, sem fiscalização, sem rede de esgotos, sem água encanada, onde os poços eram construídos próximos das fossas, a contaminação era maior e a mortalidade infantil mais alta.

Texto 13
Na cidade do Rio de Janeiro, o centro urbano se adensou nas últimas décadas do século XIX acarretando problemas habitacionais: não havia casas para todos. As habitações coletivas, os cortiços, prosperavam. Em 1888, estas habitações correspondiam a 4% dos prédios da cidade e abrigavam 12% da população. Mais de 20 mil pessoas viviam nesses pardieiros.
O Rio de Janeiro, uma cidade portuária, por esta razão e pelo descaso do poder público em manter a higiene, apresentava as piores condições de salubridade. Rio e Santos – outra cidade portuária e de intenso movimento – eram as cidades mais insalubres do país, e serviam de palco para grandes epidemias.
A insalubridade do Rio de Janeiro foi resolvida pela reforma urbana empreendida pelo prefeito Pereira Passos, em 1904. A reforma visou à remodelação do centro da cidade, à valorização desse espaço para o comércio e às finanças. Mas para isso foi preciso enxotar a população pobre do centro, mediante uma operação que ficaria conhecida como “bota abaixo”. Centenas de imóveis foram derrubados e, em seu lugar, surgiram avenidas alargadas e embelezadas. Com a reforma urbana, a Capital da República transformou-se numa cidade moderna e higiênica… em cartões postais…

Texto 14
No começo do século XIX, nas grandes e industrializadas cidades do Sudeste, a maior parte da classe despossuída vivia em condições lamentáveis, amontoadas em cortiços e favelas insalubres e desconfortáveis.
Melhor do que ela, sem dúvida, se encontravam os trabalhadores de fábricas, cujos proprietários construíam o que então se chamava de “vila operária”. Embora não fossem tão comuns no Brasil, as vilas representaram, na época, uma das mais modernas e eficientes táticas capitalistas no sentido de fixar o trabalhador na indústria e controlar o seu comportamento, garantindo a estabilidade da mão-de-obra.
Para conservar aquela moradia, o indivíduo deveria se manter no emprego e, portanto, afastar-se das agitações operárias e greves, evitando desestabilizar o sistema. A submissão à classe patronal era a condição de garantia e o preço maior que se pagava pelo direito à moradia.

Em 1890, o escritor brasileiro Aluísio de Azevedo dedicou o seu mais popular romance, O Cortiço, à vida de um desses aglomerados humanos, no Rio de Janeiro. Ele procedeu uma inovação na literatura brasileira, apresentando a coletividade como personagem. De certa forma, esta obra foi precursora da importância social que os cortiços tiveram
na vida dos trabalhadores urbanos no Brasil. Nesse romance, já apareciam algumas pequenas fábricas ao lado do cortiço que abrigava boa parte dos personagens apresentados.

Veja um trecho desta clássica obra da literatura brasileira:
Documento 16
Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia. Montara-se uma fábrica de massas italiana e outra de velas.
Não obstante as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam, enchiam-se logo. Noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem.
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.

Até o final dos anos 1950, o principal setor da economia brasileira ainda era a agroexportação. O Brasil precisava de mais indústrias. Mas havia poucos investimentos, pois a burguesia industrial brasileira ainda era jovem e fraca, além disso, os investidores estrangeiros não mostravam muito interesse em abrir empresas por aqui. Sem poder contar com o capital privado nacional, nem com o multinacional, o desenvolvimento industrial se deu mediante a intervenção do capital estatal.
Foram criadas empresas estatais (que pertencem ao governo) nos setores de indústria de base e de infra-estrutura, por exemplo: a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda para forjar toneladas de aço; a Companhia Vale do Rio Doce, de mineração; a Companhia Hidrelétrica de São Francisco (que constituiu a usina de Paulo Afonso); a Companhia de Álcalis (produtos químicos); e a Petrobrás, voltada para a exploração e refino de petróleo.

Texto 15
No lugar dos tradicionais ramos de tecidos, vestuário e produtos alimentícios, cresceriam, doravante, setores como a metalurgia, mecânica, cimento, material elétrico e transportes, além das indústrias químicas e farmacêuticas.
Uma série de bens industriais que até aquele momento eram importados pelo país passariam a ser produzidos internamente. A esse processo damos o nome de substituição de importações. Esta seria a marca registrada da história da industrialização brasileira até meados da década de 1950.
O Estado seria o principal agente desta transformação, isto é, um setor de indústrias de base ou pesadas.
Somente com sua criação haveria chances de êxito para o processo de substituição de importações, sem o país precisar importar do exterior tudo o que necessitasse em matérias-primas e equipamentos.
O empresariado voltou-se para o Estado e dele exigiu uma postura intervencionista naqueles setores onde a iniciativa privada fosse insuficiente.

Em 1955, tomou posse o recém eleito Juscelino Kubitschek, lançando seu Programa de Metas, cujo principal objetivo era ampliar significativamente a produção industrial brasileira. Em apenas cinco anos de governo, o Brasil deveria deixar de ser um país basicamente agroexportador e se tornar predominantemente industrial.
Segundo o Programa de Metas, a indústria de base, a construção de estradas, de hidrelétricas e a extração de petróleo cresceriam, e graças ao investimento do Estado. Os industriais brasileiros continuariam investindo nos setores tradicionais: tecidos, móveis, alimentos, roupas e construção civil. Além disso, JK daria todas as facilidades para o capital estrangeiro. Em seu governo, várias multinacionais acabaram abrindo filiais no Brasil, na sua maioria para produzir bens de consumo.
Das realizações industriais desse período (1956-1968), a mais impressionante, sem dúvida, foi a implantação da indústria automobilística.
O governo ofereceu às empresas uma série de incentivos, desde que implantassem fábricas de veículos capazes de produzir no Brasil, até 1961, 98 a 99% do peso dos veículos.

Texto 16
Uma das mudanças que ocorreram entre o período de 1933-55 e o período 1956-67 foi precisamente esta: enquanto no primeiro a implantação das indústrias de caráter monopolista se deu basicamente sob a égide do capital estatal, no segundo este processo foi essencialmente dominado pelo capital internacional.

A partir da segunda metade da década de 1950, ocorreu o chamado processo de modernização da sociedade brasileira, caracterizado, principalmente, pelo desenvolvimento da indústria de bens de consumo, pelo aceleramento da urbanização e aumento de pessoas que deixaram de viver no espaço rural para viverem na cidade. Observe os dados abaixo que demonstram esta condição:

Automóvel, geladeira, televisão, máquina de lavar roupa, máquina de costura, batedeira de bolo, toca-discos, enceradeira, ventilador, todos estes produtos e outras novidades em eletrodomésticos encheram as lojas brasileiras e eram produzidos por empresas estrangeiras que abriram fábricas aqui. Modificaram-se hábitos, aumentando particularmente o índice de consumo daquela classe que tinha condições de acesso a essas mercadorias.
Já na década de 1970, sob o governo da Ditadura Militar, houve a industrialização com o predomínio das grandes empresas monopolistas, sendo a maioria de capital internacional; ocorreu também a proletarização de parcelas cada vez maiores da população, disseminação da sociedade de consumo, fenômeno este que passou a conviver com a fome, condição de uma grande parcela de brasileiros.
Foi neste período que o país se consolidou como efetivamente urbano. Reveja os dados do IBGE: em 1960, 45% da população vivia nas cidades, passando para 67% em 1980.
Um terço deste total estava concentrado em algumas regiões metropolitanas do país, como: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador. Ocorreu uma expansão urbana caótica, as cidades incharam, crescendo desordenadamente e sem poder oferecer condições básicas de vida aos seus habitantes. Isto provocou um contraste entre: de um lado, um cenário de luxo, grande riqueza e abundância, caracterizado pela vida nos shoppings centers e sofisticados condomínios de luxo; de outro, a proliferação de favelas, cortiços, bairros de
periferia com seus eternos problemas de infraestrutura urbana, como rede de esgoto, ruas asfaltadas e água encanada.

Documento 20
13/05/2005 – 10h05
Esgoto a céu aberto tem grande impacto na vida da população, afirma estudo O Brasil tem 10,4 milhões de domicílios que ainda não têm esgotamento sanitário adequado, segundo dados do Censo 2000.

Documento 21
HABITAÇÃO
Grupos de São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais promovem ocupações para exigir programas de moradia popular Sem-teto fazem invasões em três Estados Grupos de sem-teto fizeram, desde sábado, invasões em três Estados para reivindicar programas de habitação popular por parte do governo federal.
Em São Paulo, um grupo de cerca de 250 sem-teto, segundo números da PM, invadiu na madrugada de ontem um prédio do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), na avenida 9 de Julho (na região central).
Em Pernambuco, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) invadiu um imóvel ontem. Cerca de cem famílias entraram na central de operações da Celpe (Companhia Energética de Pernambuco), em Toritama.
Em Contagem (MG), cerca de 50 pessoas invadiram um terreno no fim de semana. Parte da área, na rodovia MG-808, pertence ao município.
O objetivo é pressionar o governo a criar o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social para resolver parte do problema do déficit habitacional no país, estimado em 7,2 milhões de moradias.


Lembre-se, este site também é seu! Divulgando esta história, você trará mais visitas ao site e nos dará força para manter o mesmo sempre atualizado.

About Diamond