História do Xadrez

A versão clássica da origem do xadrez situa-o como “jogo de guerra” na Índia, sob a denominação “chaturanga”. Estudiosos de origem inglesa e germânica, especialmente nos séculos XIX e XX, elaboraram uma interpretação sobre a “proto-história” do xadrez que aponta o norte da Índia, especificamente, a província de Caxemira (“Kashmir”), como o berço de criação desse jogo. O nome original de Chaturanga, já por si mesmo, revela a composição do jogo com a utilização de peças que representariam os quatro (Chatur) tipos de armas, membros ou divisões (Anga) empregadas no exército indiano nesse período histórico do país, e no anterior, no qual o jogo já é registrado na sociedade local. Isso se dá entre, estimativamente, os anos 450 e 550 D.C. (Mas a criação do jogo pode ter ocorrido décadas ou mesmo séculos antes, ainda que em versões modificadas ou formas experimentais). Essas armas seriam a infantaria, personificada nos Peões (“Patti”), Cavalos (“Ashwa”), Elefantes (“Hasty” ou “Dvipa”) e ainda os carros ou carruagens de
combate, simbolizados na Torre (“Ratra”). Há também registro dessa última peça sendo representada por um barco (“Naucá”), um ponto particularmente interessante e problemático ligado diretamente ao xadrez da Rússia, onde ainda hoje a Torre moderna é referida como “Ladya”, que significa barco em russo. As peças eram movidas sobre um tabuleiro (“Ashtapada”) apenas riscado (linhas que se cruzavam perpendicularmente), que pode ter servido para outros jogos, e representava o campo de combate. Os criativos indianos parecem ter querido representar ostensivamente a guerra num jogo e este propósito é ainda mais ressaltado quando se vê que tais forças bélicas sobre o tabuleiro eram comandadas por um Rei (“Raja”), sob a orientação ou aconselhamento de um “General de campo ou Conselheiro” (“Vizir”). Este último era também designado pela palavra “Mantri” (Homem sábio), na qual alguns estudiosos encontram uma corruptela ou adaptação fonética do termo original Mandarim (que designa na China um funcionário público). Tal ligação apontaria a origem do jogo como uma criação da civilização do extremo oriente – os chineses – e, não dos indianos. Houve também versões, chamadas “Chaturaji” (Quatro Reis), em que 4 jogadores comandavam “exércitos” menores e se enfrentavam mutuamente ou em alianças oportunistas. Essa versão talvez quisesse expressar o conteúdo político, muitas vezes explosivo, das relações entre os vários reinos da Índia e do mundo. Também a utilização de dados somente foi registrada em período posterior, por volta do ano 1000 (o número sorteado no dado decidia qual peça seria movida) e constitui uma proposta de interferência fortuita num jogo de estrita racionalidade e lógica. Ambas as modalidades, através dos mecanismos da época como caravanas de variados interesses, intercâmbio cultural por meio de representação de sábios visitantes, trocas comerciais e outros, foram difundidos para oeste, para a Pérsia e outros reinos, e para leste, em direção da China, Coréia e Japão e dos países da Península da Indochina. Cada um deles, ao assimilar o Chaturanga também atuou sobre o jogo produzindo pequenas modificações e adaptações.
Apesar de muitas polêmicas e questionamentos, não há dúvida alguma sobre a linhagem direta entre o Chaturanga e seu “neto” – o xadrez moderno – ante a simples constatação de que as Torres, Cavalos, Peões e Reis de ambos se movem exata e respectivamente do mesmo modo e o jogo tem o mesmo objetivo derradeiro. Em mais de um milênio e meio de história e longa caminhada pelos continentes da Terra, essas peças se conservaram quase inalteradas em seu  poder, capacidade básica de movimento e importância e finalidade dentro do jogo. Outra versão surgiu nos últimos 50 anos: um grupo de respeitáveis pesquisadores independentes e de variadas formações e não alinhados com a visão “indiófila” sobre a origem histórica do jogo de xadrez, têm oferecido uma nova análise – e muito bem fundamentada –  a respeito das cinco questões essenciais ligadas ao mistério da criação do jogo.
De fato, os mais recentes argumentos e provas sobre a verdadeira paternidade sobre o xadrez são tão robustos que assistimos a uma inversão total da situação anterior, com a China deslocando a Índia e se tornando a fonte mais segura de respostas convincentes relacionadas com as origens. Além disso, muitos dos elementos que serviam anteriormente como indícios ou demonstrações, em favor do Chaturanga como jogo original, foram refutadas como improcedentes
e mesmo demolidos como totalmente incorretos. E assim, emerge o “Planeta China” como berço verdadeiro do xadrez, fazendo a cronologia do jogo recuar em mais uns 700 ou 800 anos, para o fim do século III, antes de Cristo.
Século III A.C. O General Xin Han, nascido em 277 A.C. em Huai-yin (na atual Província de Jiangsu), em sua vida atravessou os tempos tumultuados do chamado “Período da Guerra dos Estados” (481-221 A.C.) e também da Dinastia Qin (221-206 A.C.)
e ainda atuou na igualmente contenciosa Dinastia Hàn (206-220 A.C.). Ele é simplesmente o mais exitoso militar, o mais famoso guerreiro-conquistador da história imperial da China, um longo e imenso registro, ao mesmo tempo impressionante e intimidativo, que abrange eras de 4 a 5 mil anos da vida desse povo oriental, em todos os seus aspectos,. Não há menção nas mais do que completas enciclopédias e crônicas antigas sobre o “país amarelo” de que o
General HÁN tenha sofrido alguma derrota em sua longa carreira de combates, ou deixado de realizar alguma missão atribuída a ele pelo príncipe ou imperador a quem servia. De fato, seu currículo militar e êxitos bélicos foram tão destacados que ele próprio poderia ter se tornado Imperador da China, se tivesse substituído sua lealdade absoluta por ambição política ou sonhos de poder total.
Ele também escreveu, entre os anos de 202-196 A.C., uma obra em 3 volumes chamada “A Arte da Guerra” (mesmo título de duas outras antologias já clássicas a seu tempo: a de Tse SUN e a do “Grande Duque”) que, infelizmente, não foi preservada.
A versão da origem do xadrez ligada a Xin Han, tem inicio durante o rigoroso inverno de 204-203 A.C. No quartel-general das forças comandas por ele, então situado às margens do Rio Mian-Man, na Província de Shensi, enquanto aguardavam a chegada da primavera para combater as forças inimigas de Chu Ba Wang, Príncipe de Chu, estacionadas na margem oposta do rio. A opção do jogo ocorreu com o duplo propósito de manter suas tropas ao mesmo tempo entretidas e de moral elevado durante o cerco militar e ao longo da exasperante espera do confronto agendado, e também de instruí-los, através do jogo-simulação, sobre as artes da guerra.
Visava adestrá-los sobre questões de planejamento, ataque e defesa e ação coordenada, além de exaltar a solidariedade entre os companheiros. Fez-se então que a “simulação da guerra através do jogo” fosse a mais realista, em termos dos objetivos e meios passíveis de serem transferidos simbolicamente para um jogo de tabuleiro. Para tanto, ele estudou em profundidade outros jogos criados na China e bem mais antigos, como o Wei-Qi (conhecido no
ocidente como Go), criado pelo Imperador Shün, entre 2357 e 2353 A.C., e que representa a permanente luta do povo chinês contra as freqüentes inundações no país. Ele também observou as características do Liu-Bo (ou Liu-Po), um jogo primeiramente mencionado nas crônicas relativas à dinastia Shang, atuante entre 1600 e 1028 A.C. Ele incluía o fator chance, mediante um esquema de sorteio com o uso de 6 pequenos bastões, duplamente coloridos, cujo manuseio era equivalente ao emprego de dados. Han optou por excluir a interferência da sorte, por acreditar que a guerra seria vencida por quem demonstrasse maior capacidade de planejamento prévio (Estratégia), consciência objetiva das oportunidades que surgem durante a batalha (Tática) e coordenação e solidariedade entre as várias forças de um exército.
O próprio nome do jogo – Jogo para Capturar Xiang Qi – (sendo Xiang Qi, o Príncipe de Chu, rival do Príncipe a quem o general Han serve) indica seu objetivo final para ambos os jogadores: atacar e deixar sem saída o comandante do exército rival. O equivalente ao xeque-mate, como conhecemos tal situação. No entanto, foi surgindo uma crescente confusão devida à similaridade dos nomes usados em chinês. Como as pessoas se referiam também ao jogo como “Jogo para Capturar Jiang (sendo Jiang o nome do comandante das peças do segundo jogador – “O Azul”), as respectivas abreviações “Xiang Qi e “Jiang Qi”, sendo quase homônimas, geraram uma certa mistura de significados e descrições, ainda mais incrementada pelo fato de muitos também se referirem ao jogo como “ O Jogo do Elefante”. De fato, sendo esta uma das peças usadas nas versões aprimoradas surgidas bem mais tarde, durante a Dinastia Tang (618 – 907) e que é também um dos 200 possíveis significados da palavra Xiang. Mais tarde, quando o xadrez chinês foi difundido para o extremo oriente e atingiu a Coréia e o Japão, ele foi batizado nas línguas locais de, respectivamente, Changgi e Shogi, conservando sua clara identificação (tanto lingüística, quanto funcional) com o jogo matriz.

Séculos VII e VIII D.C. A Pérsia deste período (hoje, Irã), ao assimilar o xadrez da Índia ou da China (talvez mediante contatos programados entre os sábios de cada corte, talvez por um processo de difusão cultural relativamente rápido) entre fins do século em pauta e meados do seguinte, realizam uma tradução literal do nome do jogo, que passa a ser Chatrang e de suas peças (P= “Piyadah” / C= Asp / E= Pil / V = Farzin / T= Rukh). Assim, chamam o bem recebido “Raja”, do sânscrito, pelo nome em persa que expressa realeza e a condição de chefe supremo da nação e da corte: “Shah” (os “Shah da Pérsia” constituiriam uma das mais antigas – senão a amais antiga – estirpes reais da história humana). Eles criaram também uma nova etiqueta obrigatória com o hábito gentil de avisar que o rei está atacado por uma peça contrária, dizendo neste caso, simplesmente “Shah”, o próprio nome do rei. Mais tarde, esse procedimento vai induzir e gerar em quase todas as línguas do mundo, o nome do jogo e do ataque ao rei, como Xadrez e Xeque em português, e “Chess” e “Check” em inglês, por exemplo. Essa gentileza continua sendo praticada nos dias de hoje, notadamente quando uma partida é jogada num ambiente estritamente social ou entre iniciantes. Os persas ainda
expressaram com precisão a situação padecida pelo rei quando o jogo chega ao fim: definiram como “Shah-Mat” ( precisamente “O Rei Derrotado”, e não morto, pois o monarca nunca é capturado e jamais deixa o tabuleiro), o golpe decisivo e último objetivo de quem joga xadrez. Nesse mesmo século, o jogo alcança o Império Romano do Oriente, cuja capital Bizâncio (Constantinopla) tem registros variados da prática do Zatrikion, o nome grego do Chatrang.

Quando a reforma religiosa e social da vida árabe – sonhada, elaborada e implantada vitoriosamente por Maomé na hoje chamada Arábia Saudita – torna-se uma conquista concreta, por volta de 630 depois de Cristo, seria difícil projetar que em muito pouco tempo essa nova religião – o Islã ou Islamismo – iria dominar não apenas os territórios árabes, mas tornar-se também uma força irradiadora de fé e dominação política em todo o Oriente Médio e muito além. Num breve período, o Islã subjuga vastas porções do mundo conhecido de então. Primeiro, a Arábia, depois o  Iraque, e então a Pérsia, esta, no ano de 650. Entre 644 e 710, todo o longo trecho do norte da África até às costas do extremo oeste do Mediterrâneo e do centro de Bagdá até a Índia, faziam parte do mundo marcado pelo “Crescente”. E os árabes, no contato com os persas, conheceram e ficaram fascinados com o xadrez, incorporando-o a sua cultura – como faziam com todo novo conhecimento que adquiriam – e divulgando-o entre os novos povos que seguidamente conquistavam seja pela nova fé ou pela cimitarra. Eles adaptaram o nome do jogo para “Shatranj” e as peçasdiretamente da nomeação persa anterior, como em Shah (para o Rei), “Firzan” ou “Firz”(para o Vizir), “Rukh” (para a Torre) e “Fil” (para o Elefante) ou por tradução como “Faras”(para Cavalo) e “Baidaq” (Peão). O Shatranj foi , então, valorizado por contraste com os jogos de carta e de dados, já que excluía a interferência da chance e, figurativamente, das “incertezas do destino”: o xadrez, pensavam já os estudiosos árabes do jogo, enfatiza o livre-arbítrio, a habilidade individual e a escolha consciente e racional do homem.
1497 Este ano é uma referência básica na história do xadrez. Isto porque a reformulação do Shatranj, desembocando no novo formato muito mais dinâmico do xadrez europeu moderno, coincidiu com a invenção do livro acessível devido à impressão de Gutemberg. Os dois fatores “casaram-se” perfeitamente e os primeiros analistas modernos abraçaram a empreitada de formular teorias sobre o jogo, com ênfase nos esquemas para começar uma partida (Aberturas). O mais antigo livro de análises sobre o xadrez, como o praticamos, é o Repeticion de Amores y Arte de Axedrez, livro do espanhol Luis Ramirez Lucena, publicado em 1497, em Salamanca. Esta obra inaugurou uma tradição e um esforço (em busca do mais aprimorado conhecimento técnico do jogo) que vão transformar o
xadrez num tema editorial relevante: existem mais livros publicados sobre ele do que sobre todos os demais jogos e esportes reunidos.

O tema xadrez através dos livros rivaliza com muitas disciplinas convencionais do saber humano, em número de títulos e abrangência, além do rigor científico equivalente. No mesmo século, alguns manuscritos e edições limitadas – Manuscrito de Göttingen; Questo libro e da imparare giocare a scachi, este de autoria do português Damiano, publicado em Roma em 1512; e outros – vão inaugurar pioneiramente o “corpo de doutrina” conceitual para examinar o que seriam as melhores formas de conduzir a luta, em seus aspectos estratégicos e táticos, mesmo que num nível ainda incipiente, superficial e mesmo malicioso, já que uma ameaça, ainda que primitiva, é valorizada pois “o adversário pode não vêla”. Essa filosofia simplista inspira o chamado Mate Pastor e outros modos ingênuos de ataque instantâneo que procuram aplicar a idéia do xeque-mate o mais cedo possível. Séculos XVI e XVII Neste estágio, livros de inspiração moralista ou edificantes, como o Scacchia Ludus do italiano Marco Vida, que teve 40 edições publicadas em várias línguas européias entre 1525 e 1616, ajudam na divulgação do jogo, aumentando a curiosidade sobre o xadrez, mesmo que não mostressem como jogá-lo melhor. Um avanço na crítica técnica é registrado com a edição do Libro de la invencion liberal y arte del juego del Axedrez, tido lugar na cidade de Ancala, em 1561, cujo autor, o padre espanhol Ruy Lopez de Segura, questiona a obra e o método de Lucena e, ao invés de basicamente apresentar uma típica coleção de problemas ou problemas, como fizera seu antecessor, passa a discutir possibilidades concretas para começar uma partida, oferecendo análises de variantes concretas. Esse caminho original dá seus frutos até hoje. Além disso, duas obras importantes – Il Gioco degli Scacchi, Sicília, 1617, de Pietro Carrera, com metódica compilação
de linhas de jogo conhecidas, mas pouco trabalho original e Trattato dell’Inventione e arte liberale del gioco di scacchi, Nápoles, 1604 e republicado em 1634, de Alessandro Salvio – elevam o padrão ao proceder com o registro das partidas dos jogadores mais fortes em suas análises. Dentre tais jogadores, sobressaem Leonardo da Cutri e Paolo Boi, que teriam enfrentado Ruy Lopez em matches, tanto na Itália como na Espanha. Um jogador ainda mais famoso e importante desse período primordial e quase heróico do novo xadrez, Gioachino Greco (“O Calabrês”) irá divulgar pela Europa e de corpo presente as novas formas de conduzir as aberturas e jogar uma partida com “sentido combinatório’, que ele havia descoberto e comentado em limitadas edições manuscritas, e vendidas para patrões e mecenas “generosos”. Levando uma vida de aventuras, Greco viajou para a Inglaterra, França, Alemanha e Índias Orientais e teria sido até preso por caçadores de escravos e libertado devido a sua perícia insuperável no xadrez. Após 1650, seus trabalhos de análises são publicados de modo mais completo (p. ex. Le Jeu Des Eschets, França 1669), continuado (novas edições verão a luz do dia até 1728) e, apesar de mais exigentes em termos de compreensão técnica, encontram um clima social ainda mais favorável para o estudo do jogo, com a ascensão de uma classe burguesa já interessada no laser intelectual mais refinado. Nesse período, a imagem do jogo firma-se como a de modelo de uma sociedade moral, sendo recebido e encarado como um jogo adequado que teria condições de desenvolver e exaltar certas qualidades positivas e desejáveis numa pessoa, como a abordagem racional, o autodomínio e o ajustamento em relação ao papel e função dos demais cidadãos. O jogo também insinuava um certo equilíbrio ideal, pretendido em círculos sociais mais amplos, entre liberalismo e controle e reforçava a idéia de ser um jogo adequado ou conveniente para as classes educadas. Isso implicava, por outro lado, que sua base de praticantes continuava muito limitada, em relação ao total da população e que não havia exigência para novos desenvolvimentos técnicos ou interpretações conceituais. Ainda não se sentia a necessidade da organização de torneios e a forma de publicar sobre o xadrez ainda teria muito que evoluir para tornar o jogo mais assimilável e popular. Século XVIII Em meados deste século, o quadro geral será
alterado por força de dois livros que vão estabelecer padrões críticos mais elevados e novos formatos ao apresentar as pesquisas referentes ao conteúdo técnico do jogo. Primeiro surge o Essai sur le Jeu des Echecs, publicado em Paris, em 1737, de autoria de Philip Stamma, sírio de origem. A obra, muito crítica em relação às contribuições de Greco, oferece um estilo diferente de examinar “os segredos do jogo” através de uma larga coleção de partidas que,  alegadamente, foram jogadas pelo próprio autor. Assim Stamma inaugura o filão inesgotável do formato “Minhas Melhores Partidas”. Um outro atributo do livro é o uso pioneiro na Europa da notação algébrica para a descrição das partidas, posições e análises. Contudo, isso não constitui, como alguns pensam, uma primazia na história, pelo simples fato de que os árabes já a empregavam para descrever as partidas do Shatranj. E Stamma, como sírio, sabia desse precedente e simplesmente adaptou-o ao Xadrez Moderno e à língua francesa. A Notação Algébrica, mesmo sendo  imensamente superior em utilidade, conveniência e precisão do que a chamada “Notação Descritiva”, não conseguiu abalar o prestígio e o contínuo emprego e permanência dessa última, apesar da “propaganda” feita de modo excelente por Stamma em sua obra. E uma das razões para tanto foi a publicação da seminal L’Analyse des Echecs, realizada em Londres, no ano de 1749. Nela, seu autor, Francois- André Danican, que acrescentava ao nome também o apelido de origem familiar “Philidor”, elabora, usando a Notação Descritiva, a primeira teoria abrangente, profunda e raciocinada sobre o jogo visando guiar os praticantes pela razão técnica mais justificada.

Philidor, que era músico por formação e popular compositor de óperas, seguindo a tradição da família, não teve rivais práticos que o pudessem ameaçar no jogo. Para ilustrar, note-se que ele derrotou Stamma, que seria seu rival mais próximo em força, por nada menos do que 8 vitórias a uma derrota e um empate. De fato, ele foi provavelmente, o jogador mais “dominante” de todas as épocas e estava muito à frente de seu tempo no entendimento das complexidades técnicas do jogo. A elaboração de sua “teoria compreensiva” da estratégia fundamental da abertura e meio-jogo, baseada no jogo conjunto dos peões (“falange”, cadeia e estrutura de peões), marcou o primeiro esforço de tratamento científico do jogo e da sistematização das grandes idéias estratégicas e posicionais que conduzem a luta numa partida. Philidor é universalmente citado por seu lema, que carrega um toque poético e ainda revela, de modo emblemático, a crença do autor: “Os Peões são a alma do Xadrez”. Porém, pressupõe-se que a importância das
descobertas e do trabalho de Philidor estão muito mais precisamente refletidos na continuação da frase que ele escreveu como conclusão – “Eles são a base do ataque e da defesa e do seu correto manejo dependerá o sucesso de um ou de outro” – e quase nunca citada. A força prática de Philidor como jogador pode ser aquilatada nas análises que ele produziu para esclarecer as possibilidades dos dois jogadores no final de partida de Torre contra Torre e Bispo. Até hoje, sua contribuição original é uma referência técnica plenamente válida e um desafio de assimilação até para os
melhores jogadores do mundo da atualidade, que quando se vêm na situação concreta de sustentar o lado da Torre solitária erram com freqüência, apesar do caminho correto para a defesa já ter sido apontado por Philidor há quase 260 anos atrás. Seu livro estabeleceu um novo padrão para a pesquisa teórica do jogo e sua apresentação e fez aumentar o interesse geral pelo jogo, assim como suas exibições de xadrez às cegas, além de estabelecer um
novo nível técnico para os jogadores e autores que o seguiram. O livro de Philidor e seu próprio aparecimento como jogador vão marcar um divisor de águas na história do xadrez. Entre os seus sucessores como pesquisadores, apontam-se os italianos Ercole del Rio, com a publicação quase simultânea à obra de Philidor, de seu Sopra il giuoco degli Scacchi, feita na Itália, em 1750, e Giambattista Luli, com seu vasto tomo (632 páginas) Osservazioni teorico-pratiche sopra il giuoco scacchi , editado em Bolonha, no ano de 1793, e ainda Domenico Ponziani, com seu menor ainda que mais influente livro, Il giuoco incomparabile degli scacchi, de 1769, em Modena. Este trio argumentava que Philidor resistia ao tratamento mais dinâmico das posições, preferindo o manejo dos peões em falange de modo algo “fanático”, em detrimento da ação imediata e direta das peças. Esta e outras polêmicas através das épocas foram definindo e firmando a cultura própria do jogo e o modo de operar que aproxima a teoria do xadrez de uma disciplina com pretensões científicas. Temos sedimentado, ao analisar o conteúdo do jogo em seus mais variados e preciosos detalhes, um conjunto de procedimentos que emula o método científico. Através de leis gerais, princípios, teses, argumentos sintéticos, crítica e testes contínuos (afinal, as “teorias” do xadrez são testadas no verdadeiro laboratório dos torneios: as partidas dos jogadores”), publicações especializadas e revisão permanente das teses e análises, tentamos “alcançar a verdade”, do mesmo modo como fazem, cada uma no seu âmbito, as disciplinas científicas do conhecimento humano. Ou seja, resumindo-se o sentido das obras do período em foco, o Jogo de Xadrez é um “Jogo de Idéias” e idéias têm que ser debatidas e testadas.
Século XIX Com a chegada deste século e as enormes mudanças que ele produziu, a organização social se apura e as pessoas passam a ter melhores oportunidades, inclusive as culturais. Isso favorece a ampla difusão do xadrez, que chegará ao final do século angariando maior popularidade e sendo assim usado como tema interessante por outras artes, algumas novíssimas como Cinema, outras veteranas como Literatura e Pintura. No intervalo compreendido entre os anos de 1650 a 1850, a imagem do xadrez é significativamente modificada em relação ao período anterior e o jogo dos dois reis passa a ser encarado como um lazer intelectual. Assim, ele se torna um jogo próprio para a idade da razão que tinha um valor pedagógico intrínseco, como se fosse um espelho moral da vida, ensinando as pessoas a viver, mediante lições de “causa e efeito”, de responsabilidade pelas próprias escolhas, de oportunismo, de previsão e circunspecção. Um texto famoso que dará os toques definitivos a essa interpretação é The Morals of Chess (A Moral do Xadrez), de Benjamin Franklin, o conhecido liberacionista norte-americano, que publicou seu ensaio em Londres, em 1779, o qual, à propósito, não trata de nenhum aspecto técnico do jogo. Assim, nesses novos tempos e com as novas facilidades de publicação, a produção técnica que discute xadrez diversifica-se, amplia-se e vai tornando-se mais

acessível em várias línguas européias. Assim por exemplo, vê-se surgir em russo dois livros históricos: Sobre o Jogo de Xadrez, de I.Butrimov, e “O Jogo de xadrez”, de A.D. Petroff, ambos publicados em São Petersburgo,  respectivamente, em 1821 e 1824. Do mesmo modo, a literatura técnica sobre o jogo vai gerar logo nas próximas
décadas um grande número de títulos na Inglaterra, Alemanha, França e países do norte e do leste europeu, revelando que a busca de entendimento sobre o jogo aumentava, estabelecendo-se assim as condições para que se apurassem as novas formas de divulgação e comunicação do jogo.


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