História do Romantismo

Se o Iluminismo constitui um movimento iniciado no seio de uma elite pequena e que, aos poucos, influenciou o restante da sociedade, o Romantismo, por sua vez, foi mais amplo tanto na origem como em sua influência. Nenhum outro movimento intelectual ou artístico teve a mesma variedade, alcance e poder de permanência desde o final da Idade Média.

Com origem na Alemanha e Inglaterra da década de 1770, em 1820 o movimento já havia passado por toda Europa, conquistando por último até os seus membros mais teimosos, os franceses. O Romantismo viajou com grande velocidade pelo Ocidente, e sua forma musical triunfou por todo o globo, de modo que, tanto em Londres como em Boston, e também na Cidade do México, Tóquio, Vladivostok, Oslo e no resto do mundo, a música orquestral mais popular é a do período romântico. Após quase um século de ataques por parte do mundo acadêmico e profissional da música erudita, o estilo se reajustou e passou a ocupar os palcos como Neo romantismo. Quando John Williams criou o som do futuro em Star Wars, estava na realidade recriando o som romântico do século XIX estilo que continua sendo o mais popular entre as trilhas sonoras de filmes épicos.

Iniciado nas últimas décadas do século XVIII, o estilo transformou a poesia, o romance, as artes dramáticas, a pintura, a escultura, o balé e todas as formas de música erudita (especialmente a ópera). O Romantismo estava profundamente ligado à política da época, ecoando os medos, esperanças e aspirações do povo. Foi a voz da revolução no início do século XIX e a voz do Estabelecimento, no final.

Essa última mudança foi resultado do triunfo da classe que criou, fomentou e adotou como seu o movimento romântico: a burguesia. Para entender como isso aconteceu, precisamos examinar mais de perto a natureza do estilo e suas origens.

1. Origens: Folclore e Arte Popular

Os primeiros elementos que inspiraram o movimento romântico são convencionalmente datados da metade do século XVIII, quando surgiu o interesse pelo folclore na Alemanha com Jakob e Wilhelm Grimm coletando contos de fadas populares, e outros estudiosos como Johann Gottfried von Herder investigando canções folclóricas e na Inglaterra, com Joseph Addison e Richard Steele tratando antigas baladas como grandes poesias. Essas atividades foram a base de uma das características do Romantismo: a crença de que os produtos do inculto imaginário popular poderiam ser iguais ou até mesmo superiores aos criados pelos bem educados poetas e compositores da corte, que até então monopolizavam as atenções dos estudiosos e connoisseurs.

Enquanto que pela maior parte dos séculos XVII e XVIII complexidade e grandiosidade eram as palavras de ordem, o novo gosto romântico favorecia a simplicidade e a naturalidade; acreditava se que essas características fluíam com mais abundanciada e claridade nas “criações espontâneas” de pessoas comuns e sem educação formal. Na Alemanha em particular, a idéia do Volk (povo) como coletividade dominava grande parte do pensamento sobre as artes. Ao invés de prestar atenção individual aos autores de obras populares, os estudiosos alemães celebravam as massas anônimas que inventavam e transmutavam esses trabalhos, como se fossem criados a partir das suas próprias almas. Toda essa idealização do processo criativo folclórico refletia pouco conhecimento real sobre os verdadeiros processos pelos quais as canções e histórias eram criadas e transmitidas; e também acabou fomentando uma ideologia sobre a essência da alma alemã, que mais tarde seria aproveitada pelos nazistas no século XX.

2. Nacionalismo

A conseqüência natural da exploração dessa engenhosidade folclórica foi a intensificação sentimento nacionalista. A pintura romântica francesa é repleta de temas relacionados aos tumultuosos eventos políticos do período, e a música romântica posterior constantemente obteve sua inspiração nas canções do folclore nacional. Goethe, em Faust, deliberadamente une temas e imagens do folclore alemão a elementos clássicos.

3. Shakespeare

Um dos primeiros efeitos do interesse nas artes folclóricas parece um pouco estranho para a mente moderna: a propagação e o crescimento da reputação de William Shakespeare. Apesar de Shakepeare hoje ser considerado o epítome da literatura, sua reputação inicial era muito diferente um dramaturgo popular que escrevia para teatros comerciais em Londres. Ele não teve educação superior e, apesar de sua companhia ter tido o patrocínio do Rei James, seu trabalho não era inteiramente “respeitável”.

Os críticos acadêmicos inicialmente zombavam da sua falta de disciplina, da rejeição dos conceitos formais de dramaturgia, que eram em parte baseados nos padrões gregos e romanos. Uma boa peça de teatro não deveria misturar comédia e tragédia, proliferar tramas e subtramas, ter uma variedade muito grande de cenários ou arrastar a história por meses ou anos; mas todos esses elementos estavam presentes nas obras de Shakespeare. Uma peça séria e apropriada deveria sempre estar muito bem dividida em cinco atos, mas as de Shakespeare simplesmente fluíam de uma cena a outra, sem dar atenção às regras acadêmicas de arquitetura dramática (a divisão em atos que hoje vemos nas peças shakespearianas foi imposta por editores depois da morte do dramaturgo).

Se os ingleses românticos exaltavam a obra de Shakespeare como o clássico dos clássicos, pode se imaginar o efeito explosivo nos alemães. O teatro clássico francês foi o modelo preeminente da dramaturgia européia; mas quando os alemães românticos começaram a explorar e traduzir as obras de Shakespeare, eles ficaram fascinados. A despreocupação do dramaturgo com as normas clássicas, que os alemães consideravam tão limitantes, foi inspiradora. Escritores como Friedrich von Schiller e Goethe criaram seus próprios dramas inspirados em Shakespeare. Faust contém muitos elementos shakespearianos, além de imitar todas as qualidades que iam de encontro ao teatro clássico.

Pelo fato de Shakespeare ser um escritor popular, os românticos exageraram na simplicidade das suas origens. Na realidade ele havia recebido uma excelente educação que, apesar de inferior à oferecida pelas universidades, estava muito além do que o estudante universitário atual aprende sobre os clássicos. Numa época embebida na publicação e leitura de livros, ele tinha acesso à mitologia grega, história romana e inglesa, contos de humanistas italianos e uma grande variedade de outros materiais. É verdade que ele usava traduções, sumários e popularizações, mas não era nem um pouco ignorante.

Para os românticos, entretanto, ele era a essência da poesia folclórica, o grande defensor da fé na criatividade espontânea. Grande parte da dramaturgia européia do século XIX foi influenciada por ele; pintores criavam ilustrações para suas cenas e com positores baseavam óperas e poemas orquestrais em suas narrativas.

4. O Romance Gótico

Outra distinta contribuição do movimento romântico foi o romance gótico. O primeiro deles foi The Castle of Otranto (Horace Walpole, 1765), ambientado em um castelo assombrando e contando com várias aparições misteriosas, como por exemplo um pulso cerrado gigantesco. Esse tipo de história foi popularizado por escritores como Ann Radcliffe e M. L. Lewis (The Monk), e com o tempo se difundiu internacionalmente, influenciando escritores como Eugène Sue (França) e Edgar Allan Poe (EUA). Tendo rejeitado o ideal iluminista do equilíbrio e racionalismo, os leitores entusiasticamente procuravam pelas aventuras histéricas, místicas e passionais de heróis e heroínas aterrorizados por forças misteriosas e assustadoras. Tanto as modernas histórias de terror como os romances femininos são descendentes do romance gótico, transmutado por Charlotte Brontë em Jane Eyre e Emily Brontë em Wuthering Heights. Outro clássico gótico, o Frankenstein de Mary Shelley, é comumente citado como o precursor das histórias modernas de ficção científica.

5. Medievalismo

O romance gótico abraçou a cultura medieval (“gótica”), tão desprezada durante o início do século XVIII. Enquanto a arte tradicional se inspirava constantemente nos gregos e romanos, os góticos celebravam pela primeira vez desde a Renascença os aspectos mais extravagantes da criatividade dos europeus ocidentais dos séculos XII a XIV: catedrais com janelas em vitrais, contos de Robin Hood e acima de tudo as lendas sobre o Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda. Essa influência ultrapassou o romance gótico e alcançou todas as formas artísticas da Europa, e hoje ainda vive nos romances de fantasia. Fadas, bruxas, anjos todas as criaturas do imaginário popular medieval invadiram as artes européias do período romântico (e todas estão presentes em Faust).

O anseio por épocas mais “simples”, sem o peso do mundo clássico, deu início a um novo estilo: o romance histórico. Sir Walter Scott (1771 1832) foi de longe o mais bem sucedido no gênero. Apesar do crédito pelo primeiro romance histórico devesse ser atribuído a Madame de Lafayette por seu La Princess de Clèves (1678), Scott é geralmente considerado o responsável pela estrutura do romance que conhecemos na atualidade. Hoje praticamente esquecidas, suas obras como The Bride of Lammermoor e Ivanhoe já serviram de inspiração a escritores, pintores e compositores na Alemanha, França, Itália, Rússia e muitos outros países.

6. Emoção

Outra característica influente do romance gótico é a evocação de emoções fortes e irracionais particularmente o horror. Enquanto Voltaire e seus compatriotas detestavam o “entusiasmo” e lutavam para dispersar as névoas da superstição, os escritores góticos evocavam todos os tipos de cenas irracionais, criadas para maravilhar e aterrorizar. Os escritores românticos também valorizavam os sentimentos mais tenros como afeição, tristeza e anseio romântico. Nesse aspecto eles foram inspirados por algumas correntes contemporâneas ao Iluminismo, em particular as obras do arqui rival de Voltaire, Jean Jacques Rousseau.

7. Rousseau

Rousseau era um homem temperamental, exageradamente sensível e até mesmo paranóico que tinha o costume de meditar sobre os próprios sentimentos. Como o inglês Samuel Richardson, ele explorava em sua ficção as agonias do amor frustrado particularmente em seu muito bem sucedido romance The New Heloise e celebrava o refinamento peculiar do sentimento que os ingleses chamavam “sensibilidade” e que nós chamamos “sensitividade”. De todos os aspectos da ficção romântica, o pendor pelo regozijo no sentimentalismo choroso e os anseios e desapontamentos de protagonistas frustrados são os mais estranhos às audiências modernas. Somente na ópera e no cinema, onde o poder da música é acrescentado como reforço às emoções evocadas, é que a maioria das audiências modernas se entrega à trama, e sempre dentro de limites.

As grandes mentes do século XX geralmente rejeitavam o sentimentalismo, e até mesmo definiram essas emoções como falsas e exageradas; nós costumamos achar piegas ou até mesmo cômico muito do que os românticos consideravam emocionante e belo. No entanto, havia mais do que auto indulgência e escapismo nesse sentimentalismo febril. Seus defensores afirmavam que o cultivo de uma maior sensibilidade poderia fazer crescer a moralidade e a espiritualidade. O cultivo da empatia pelos sofrimentos alheios poderia até mesmo ter servido de veículo para a mudança social, como as obras de Charles Dickens. O fato de esse sentimentalismo ter sido às vezes exagera do ou artificial não deve obscurecer a verdade de que era muito genuíno e inspirador. Nossos ganhos com as modernas atitudes literárias de cinismo, desprendimento e crueldade não são tão evidentes.

De todas as emoções celebradas pelos românticos, a maior era o amor. Apesar de alguns romances famosos se concentrarem no terror ou no ódio, a força motora por trás dessas paixões era geralmente o relacionamento entre amantes. No mundo clássico, o amor era mais ou menos equiparado ao sexo, e os romanos o tratavam de uma forma particularmente cínica. Os trovadores medievais celebravam o adultério cortesão de acordo com um código altamente artificial que pouco refletia as vidas de homens e mulheres reais, enquanto aceitavam a opinião dos médicos de que a paixão romântica era uma doença potencialmente fatal. Foram os românticos que celebraram o amor como direito natural de cada ser humano, como o mais nobre dos sentimentos e como base do casamento bem sucedido. Se concordamos ou não com essa atitude, devemos reconhecê la como uma das mais influentes na história mundial.

Esta não é a hora de rastrear a longa e complexa história de como a paixão transcendente, irracional e auto destrutiva de Romeu e Julieta se tornou o direito natural de todo cidadão europeu; mas essa certeza, que continua dando forma a muitas opiniões sobre relacionamentos, casamento e família, encontrou sua maturidade durante a era romântica. O amor foi tão fortemente identificado com o romance que os dois hoje são geralmente interpretados como sinônimos, descartando as associações antigas de “romance” a aventura, terror e misticismo.

8. Exotismo

Outro importante aspecto do Romantismo é o exótico. Assim como os românticos se identificavam com o anseio por pessoas de um passado distante, também pintavam cenas de lugares distantes. As distâncias não precisavam ser tão grandes: a Espanha era o lugar “exótico” favorito dos franceses, por exemplo. O norte da África e o Oriente Médio eram as fontes dos cenários “asiáticos” para os europeus. Geralmente qualquer lugar ao sul do país era considerado mais relaxante, colorido e sensual.

Esse exotismo basicamente consistia em simples estereótipos constantemente repetidos, mas a era romântica foi também o período no qual os europeus mais viajavam, para conhecer pessoalmente as terras distantes sobre as quais tinham lido. A maior parte desse turismo foi intensamente realizado com as atitudes difundidas pelo colonialismo, que florescia durante o período. A maioria dos “nativos” eram retratados como inevitavelmente preguiçosos e incapazes de se controlar, enquanto os que aspiravam à sofisticação européia eram comumente ridicularizados. Muitos homens que faziam essas viagens viam as mulheres de praticamente qualquer terra estrangeira como mais sexualmente desejáveis e disponíveis, e é assim que elas foram retratadas na ficção, drama, arte e ópera.

Assim como Scott foi a força mais influente na popularização do romance histórico, o exotismo literário teve sua grande inspiração em Lorde Byron especialmente no seu Childe Harold’s Pilgrimage (1812 1818). Enquanto a poesia lírica romântica de Coleridge, Shelley, Keats e Wordsworth teve pouca difusão fora da língua nativa, os poemas longos de Byron foram bem traduzidos para outros idiomas e meios artísticos.

O exotismo não estava sempre em colisão com o nacionalismo romântico, pois este geralmente se concentrava nas esquecidas tradições folclóricas que também eram exóticas para as pessoas que as redescobriam. As bruxas de Goethe não eram mais familiares por serem germânicas do que, digamos, as bruxas escocesas em Macbeth.

9. Religião

Um dos processos mais complexos desse período é a transformação da religião em assunto de tratamento artístico bastante diferente da arte religiosa tradicional. O Iluminismo havia enfraquecido, contudo dificilmente desarraigado a religião na Europa. Com o passar do tempo, escritores e artistas sofisticados eram cada vez menos pios; mas durante a era romântica muitos foram atraídos pelas imagens religiosas, da mesma forma que eram atraídos por lendas arturianas e outras tradições em que já não acreditavam. A religião foi estetizada, e os escritores sentiram se confortáveis para explorar temas bíblicos com a mesma liberdade com que seus antecessores tratavam a mitologia clássica, e com a mesma falta de reverência.

Faust começa e termina no Paraíso, tem Deus e o diabo como protagonistas, anjos e demônios como coadjuvantes e explora uma grande variedade de temas cristãos, mas não é uma peça cristã. O Iluminismo enfraqueceu o controle que o Cristianismo exercia sobre a sociedade a tal ponto que alguns escritores, como Goethe, não sentiam mais a necessidade de lutar as mesmas batalhas de Voltaire eles simplesmente estavam livres para jogar com o tema. Uma atitude semelhante pode ser observada em alguns trabalhos dos pintores ingleses pré rafaelitas, que começaram a tratar de temas cristãos no contexto da charmosa “ingenuidade” do Medievalismo.

A mistura de fascinação e descrença quanto à religiosidade, evidente nesses trabalhos, ilustra um princípio geral da história intelectual: movimentos artísticos e sociais quase nunca se comportam como pêndulos rijos, balançado harmoniosamente de um lado a outro. Uma metáfora mais adequada para a mudança social são os movimentos das ondas do mar quebrando na praia uma se esvaecendo ao mesmo tempo em que outra avança, resultando na mistura dos elementos das duas. Pelo fato de muitas de suas características terem surgido como reação à racionalidade do Iluminismo, o Romantismo também incorporou muitos elementos do movimento que lhe antecedeu, ou pelo menos coexistiu com as mudanças trazidas por ele.

10. Individualismo

Um dos processos mais importantes desse período é o aumento da importância do individualismo. Antes do século XVIII, poucos europeus se preocupavam em descobrir a própria identidade. Eles eram exatamente aquilo que haviam nascido: nobres, camponeses ou mercadores. Entretanto, na medida em que o mercantilismo e o capitalismo transformavam a Europa, os velhos padrões eram desestabilizados. Os novos industrialistas naturalmente gostavam de receber crédito por terem construído suas próprias fortunas e rejeitaram o direito da sociedade de regular e tributar seus negócios. Às vezes eles tentavam se encaixar nos padrões tradicionais comprando títulos da nobreza; contudo, cada vez mais eles desenvolviam seus próprios gostos na arte e criavam novos movimentos sociais e artísticos fora dos padrões da velha aristocracia. Esse processo pode ser constatado até em lugares como os Países Baixos, durante a Renascença.

As mudanças na economia não só tornaram o individualismo atraente para os novos ricos elas viabilizaram um mercado livre das artes, no qual pintores, compositores e escritores empreendedores poderiam procurar novos públicos dispostos a bancar seus trabalhos, libertando os do confinamento ao punhado de patronos aristocratas e eclesiásticos que praticamente compartilhavam dos mesmos valores. Esses artistas poderiam agora sustentar a exploração de seus gostos individuais de uma forma que não era possível nem na Renascença.

Foi no período romântico e, não por coincidência, também no período da revolução industrial que a preocupação com o individualismo teve a sua maior expansão. Byron, na literatura, e Beethoven, na música, são exemplos do individualismo romântico levado ao extremo. Mas o exemplo mais influente desse individualismo do século XIX não foi um artista, e sim um militar: Napoleão Bonaparte. A forma dramática com que chegou ao maior posto de governo da França, no despertar caótico da sua revolução sangrenta, o modo como garantiu ao seu exército uma série de triunfos na Europa e a maneira como construiu seu influente Império, criando novos estilos, gostos e mesmo leis alheias à opinião pública fascinou a população da época. Ele era amado e odiado, e mesmo cinqüenta anos depois de da sua morte, ainda inspirava escritores como Dostoyevsky, que o considerava a mais poderosa força corrosiva que celebrava a ambição e liberdade individual à custa da responsabilidade e da tradição.

Chamamos de “faustina” a pessoa imprudente que procura remodelar o mundo de acordo com os próprios desejos, pouco se importando com a moralidade ou a tradição; poderíamos muito bem chamá la “napoleônica”.

A fascinação moderna com a auto definição e auto invenção, a idéia de que a adolescência é naturalmente uma época de rebelião na qual “nos descobrimos”, a noção de que o melhor caminho religioso é aquele escolhido por nós mesmos, a concepção de que o governo existe para servir aos interesses dos indivíduos que o criaram tudo isso é produto da celebração romântica do indivíduo à custa da sociedade e da tradição.

11. Natureza

Dificilmente houve um tempo, desde a mais remota Antigüidade, em que os europeus não celebrassem de alguma forma a natureza, mas a atitude do mundo ocidental moderno em relação ao tema foi praticamente concebida durante o período romântico. O Iluminismo afirmou que a “lei natural” é a fonte da verdade, mas a manifestação dessa lei ocorre na sociedade e está relacionada principalmente ao comportamento cívico. Ao contrário dos orientais, os europeus tradicionalmente tinham pouco interesse nas paisagens naturais. Pinturas de temas rurais eram geralmente muito idealiza das: jardins bem cuidados ou perfeitas visões do mito Arcadiano da Grécia e Roma antigas.

Novamente, Rousseau ocupa aqui um lugar importante. Ele adorava fazer longas caminhadas, escalar montanhas e “comungar com a natureza” de uma forma geral. Seu último trabalho se chama Les Rêveries du promeneur solitaire (Divagações de um Caminhante Solitário). A Europa havia se tornado mais civilizada e segura, e seus cidadãos agora se sentiam livres para viajar a passeio. Não havia mais perigo em atravessar montanhas e florestas, e os cenários proporcionavam vistas incríveis para serem apreciadas e estudadas. A violência das tempestades oceânicas passou a ser admirada como objeto estético em numerosas pinturas, poemas musicais e descrições escritas, como na abertura de Faust (Goethe).

Nada disso aconteceu com as gerações anteriores, que costumavam ver o humano e o natural como pólos opostos o natural às vezes exercendo um poder maligno que degradava e desumanizava todos os que eram atraídos por ele. Os românticos cultivavam a sensitividade sobre a natureza tanto quanto a sensitividade sobre emoções em geral. Eles chegaram à conclusão de que meditar à beira de um riacho, observar uma tempestade ou até mesmo confrontar um vasto deserto poderia aprimorar a moral. Grande parte da literatura do século XIX sobre a natureza tem uma certa qualidade religiosa que não é vista em qualquer outro período. Essa mudança de atitude se provou extremamente poderosa e persistente, como podemos constatar hoje na paixão dos alemães, britânicos e americanos pelas florestas.

O fato de esse interesse surgir no momento em que a revolução industrial destruía grandes porções de florestas e campos, criando um ambiente artificial sem precedentes, pode parecer paradoxal. São precisamente as pessoas que vivem em ambientes urbanos, conscientes do contraste entre suas vidas diárias e o cotidiano dos moradores do campo, que costumam romantizar a natureza. Elas se sentem atraídas justamente porque não fazem mais parte dela. Fausto, por exemplo, é fortemente atraído pela vista da paisagem sob o luar, no início da peça de Goethe, principalmente por estar muito desconectado do mundo acadêmico no qual viveu por tanto tempo.

12. Vitorianismo

Os estudiosos da literatura inglesa fazem uma distinção muito grande entre o período romântico e o vitoriano, mas em nosso caso é melhor pensarmos no último como um estágio tardio do primeiro. As atitudes puritanas comumente associadas ao reina do da Rainha Vitória também se manifestaram na Alemanha e num nível menor na França. Vitória não criou o Vitorianismo; ela simplesmente exemplificou a mentalidade da época. Mesmo assim, os aspectos românticos da passionalidade, erotismo e até mesmo destruição continuavam em evidência em todas as artes.

13. Reações

Assim como o Iluminismo, o Romantismo deu origem a outros movimentos divergentes, como o Realismo, Impressionismo, Neo Classicismo etc. Nenhum destes, no entanto, conseguiu substituir por inteiro o impulso romântico. O Naturalismo hoje coexiste com o Romantismo na ficção e no cinema; e existe um grande público para ambos. A moda contemporânea dos designs “vitorianos” é apenas um exemplo dos freqüentes reavivamentos dos gostos e estilos românticos que ocorreram durante todo o século XX.

Reexaminando a lista de características discutidas aqui podemos prontamente ver que, apesar de o Romantismo não ter sido um movimento tão coerente quanto o Iluminismo, e de não ter o tipo de objetivo pragmático que os iluministas professavam, foi ainda mais bem sucedido na transformação da história ele mudou o significado de ser humano.


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