História da Capoeira

A capoeira é hoje um dos esportes nacionais do Brasil, embora sua origem seja controvertida. Há uma tendência dominante entre historiadores e antropólogos de afirmar que a Capoeira surgiu no Brasil, fruto de um processo de aculturação ocorrido entre africanos, indígenas e portugueses. Entretanto, não houve registro de sua presença na África bem como em nenhum outro país onde houve a escravidão africana. Em seu processo histórico surgiram três eixos fundamentais, atualmente denominados de Capoeira Desportiva, Capoeira Regional e Capoeira Angola, os quais se associaram ou se dissociaram ao longo dos tempos, estando hoje amalgamados na prática. Desde o século XVIII sujeita à proibição pública, ao longo do século XIX e até meados do século XX, ela encontrou abrigo em pequenos grupos de praticantes em estados do sudeste e nordeste. Houve distintas manifestações da dança-luta na Bahia, Maranhão, Pará e no Rio de Janeiro, esta última mais utilitária no século XX. Na década de 1970 sua expansão se iniciou em escala nacional e na de 1980, internacional.

Embora sejam encontrados diversos significados para o vocábulo “capoeira”, cada qual referindo-se a objetos, animais, pessoas ou situações, em termos esportivos, trata-se de um jogo de destreza corporal, com uso de pernas, braços e cabeça, praticado em duplas, baseado em ataques, esquivas e insinuações, ao som de cânticos e instrumentos musicais (berimbau, atabaque, pandeiro, agogô e reco-reco). Enfocada em suas origens como uma dança-luta, acabou gerando desdobramentos e possibilidades de emprego como: ginástica, dança, esporte, arte, arte marcial, folclore, recreação e teatro, caracterizando-se, de modo geral, como uma atividade lúdica.

1577: Primeiro registro do vocábulo “capoeira” na língua portuguesa: Padre Fernão Cardim (SJ), na obra “Do Clima e da Terra do Brasil”. Conotação: vegetação secundária, roça abandonada.

1640: Início das invasões holandesas. Desorganização social no litoral brasileiro. Evasão dos escravos africanos para o interior do Brasil. Aculturação afro-indígena. Organização de dezenas de quilombos. Surgem as expressões: “negros das capoeiras”, “negros capoeiras” e “capoeiras”.

1770: A mais antiga referência da Capoeira enquanto uma forma de luta surge neste ano, vinculando-a ao tempo do Vice-Rei Marquês do Lavradio no Rio de Janeiro, em que já havia o sentido de “amotinados” aos seus praticantes (Edmundo, 1938).

1821: Decisão governamental de 5 de novembro, determinando providências que deveriam ser tomadas contra os negros capoeiras na cidade do Rio de Janeiro.

1831: Decisão de 27 de julho no RJ: manda que a junta policial proponha medidas para a captura e punição dos capoeiras e malfeitores.

1832: Postura de 17 de novembro no RJ, proibindo o “Jogo da Capoeira”.

1888: Lei Áurea. Abolição da escravatura em 13 de maio.

1888: Surge o primeiro livro sobre a Capoeira: o romance “Os Capoeiras”, de Plácido de Abreu, em que aparece a primeira nomenclatura de movimentos.

1889: Proclamação da República. Deportação dos capoeiras considerados criminosos para o Arquipélago de Fernando de Noronha. Nasce a proposta da Ginástica Nacional, a partir do reaproveitamento dos movimentos da Capoeira. Esta forma esportiva foi liberada pela polícia.

1890: Decreto 847: Introdução da Capoeira no Código Penal da República, no Capítulo XIII “Dos Vadios e Capoeiras” em seus artigos 402, 403 e 404. Continuidade ao processo de prisão e deportação dos capoeiristas criminosos para o Presídio de Fernando de Noronha e para a Colônia Correcional de Dois Rios na Ilha Grande – RJ.

1904: Edição do livreto apócrifo “Guia do Capoeira ou Gymnástica Brasileira”. Nele, a autoria é feita pelas iniciais “O.D.C.” que significam à época: ofereço, dedico e consagro.

1928: Surge no Rio de Janeiro o primeiro Código Desportivo de Capoeira sobre o nome de “Gymnástica Nacional (Capoeiragem) Methodizada e Regrada”. Este trabalho, de autoria de Annibal Burlamaqui (Zuma), trouxe uma nomenclatura ilustrada de golpes e contragolpes, área de competição, regulamento de competição, critérios de formação de árbitros, fundamentos históricos, uniformes etc.

1936: Em 13 de março o Jornal a Gazeta da Bahia trouxe um depoimento de Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba) afirmando que “a polícia regulamentará estas exibições de capoeiras de acordo com a obra de Annibal Burlamaqui (Zuma) editada em 1928”.

1937: Mestre Bimba funda o Centro de Cultura Física e Luta Regional, através do Alvará n° 111, da Prefeitura de Salvador. Enfocando seu trabalho no campo esportivo, obtém aceitação social, passando a ensinar para as elites econômicas, políticas, militares e universitárias.

1940: Decreto 2848. Instituiu o novo Código Penal Brasileiro. Neste ato não é citada a Capoeira. A partir desta data o uso da palavra “capoeira” tem transitado sem conotações policiais.

1941: Decreto 3.199 que estabeleceu as bases da organização dos esportes no Brasil. Com apoio neste ato foi constituída a Confederação Brasileira de Pugilismo – CBP que já na fundação instituía o Departamento Nacional de Luta Brasileira, que foi o embrião da Confederação Brasileira de Capoeira. Este foi o primeiro reconhecimento esportivo oficial da modalidade.

1945: Inezil Penna Marinho publica o livro “Subsídios para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem”. Esta obra também foi explicitamente inspirada em Annibal Burlamaqui. Década de 1950 Em 1952, criou-se a Fundação do Centro Esportivo Capoeira Angola, em Salvador, tendo à frente o Mestre Vicente Ferreira Pastinha. Seu enfoque é eminentemente esportivo e cultural da Capoeira. No ano seguinte, o Conselho Nacional de Desportos expede a Resolução 071, estabelecendo critérios para a prática desportiva da Capoeira, sendo este o segundo reconhecimento oficial. Ao longo desta década notabilizou-se Sinhozinho, na área mais afluente do Rio de Janeiro, adotando uma Capoeira eclética e utilitária.

1961: Publicação do livro “Capoeiragem – A Arte da Defesa Pessoal Brasileira”, de Lamartine Da Costa, que introduziu o tema no meio universitário brasileiro sob forma de pesquisa da luta-dança em seus movimentos e além das tradições.

1966: Participação dos representantes da chamada Capoeira Angola, sob a liderança de Mestre Pastinha, no Primeiro Festival de Artes Negras de Dakar. A delegação brasileira volta do Senegal afirmando que não existia Capoeira na África. Passam então a reivindicar uma posição nacional, afirmando que a “Capoeira Angola” é a verdadeira “Luta Brasileira”, uma vez que Mestre Bimba havia registrado com o nome “Luta Regional”.

1968: Primeiro evento acadêmico sobre Capoeira em universidade brasileira, dirigido por Alberto Latorre Faria na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo como palestrantes Lamartine Da Costa e André Lace Lopes (praticantes e pesquisadores);João Lira Filho (sociólogo) e Waldemar Areno (médico); e Luis Peixoto (professor de box e capoeira na UFRJ).

1967 – 1969: A Força Aérea Brasileira-FAB organizou o Primeiro e o Segundo Congresso Nacional de Capoeira. Nestes dois eventos, aviões da FAB trouxeram mestres de todo o Brasil com o objetivo de dar uma organização nacional efetiva à prática da luta.

Década de 1970: Iniciou-se a fundação das Federações Estaduais de Capoeira, sob a jurisdição da CBP. E nesta mesma década começa a expansão da Capoeira por todo o país, a qual antes estava limitada a poucas iniciativas e localizações. Neste estágio, passam a convergir e se consolidar vários suportes para o desenvolvimento da Capoeira tais como a institucionalização da luta (livros e publicações, gestão por federações, etc); multiplicação de mestres (imigração entre regiões do Brasil e para o exterior, festivais de grupos renomados etc); melhoria do conhecimento (pesquisa, ensino em universidades, etc); e reconhecimento público do seu valor cultural e esportivo.

1981: Inezil Penna Marinho apresenta o Projeto Técnico-Científico da Ginástica Brasileira, inspirada na Capoeira, ao Congresso Mundial da Associação Internacional de Escolas Superiores de Educação Física, realizado no RJ (Universidade Gama Filho).

1992: Fundação da Confederação Brasileira de Capoeira através do desmembramento do Departamento Nacional de Capoeira da CBP.

1993: Realização do Primeiro Congresso Técnico Nacional de Capoeira, na cidade de Guarulhos–SP. Objetivo: padronização de procedimentos técnicos, culturais e esportivos.

1995: Reconhecimento da Capoeira e vinculação da Confederação Brasileira de Capoeira ao Comitê Olímpico Brasileiro.

1997: Homologação do Superior Tribunal de Justiça Desportiva da Capoeira pela Ordem dos Advogados do Brasil. Organização do Segundo Congresso Técnico Nacional de Capoeira.

1999: Realização do Terceiro Congresso Técnico Nacional e Primeiro Congresso Técnico Internacional de Capoeira, na Cidade de São Paulo. Aprofundamento das padronizações técnicas e difusão para o exterior. Fundação da Federação Internacional de Capoeira, em São Paulo. Fundação da Associação Brasileira de Árbitros de Capoeira, em São Paulo.

2002: Introdução da Capoeira como modalidade oficial nos Jogos Regionais e Abertos do Interior dos Estados de São Paulo e de Goiás. Realização do Quarto Congresso Técnico Nacional e Segundo Congresso Técnico Internacional, realizado em novembro, na cidade de Vitória – ES. Estabelecimento do Regulamento Internacional de Capoeira e dos saberes, competências e habilidades para os técnicos, treinadores e alunos.

Situação Atual: Após três décadas de expansão no Brasil e no exterior, a Capoeira tornou-se uma das principais práticas esportivas do país, contando um total estimado de seis milhões de praticantes em cerca de 35 mil núcleos de ensino em todas as regiões brasileiras. Há também 24 federações estaduais e 92 ligas regionais e municipais, vinculadas à Confederação Brasileira de Capoeira. Por sua vez, a Federação Internacional de Capoeira já soma sete federações nacionais (Canadá, Argentina, Portugal, Holanda, França, Alemanha e Austrália), além de identificar a presença da luta em outros 156 países.


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