Ao escrever sobre Aspásia (meados do século V a.C.), mais de 2 mil anos após sua morte, o presidente americano John Adams (1735-1826) afirmou: ”Gostaria que alguns de nossos homens mais proeminentes tivessem esposas assim”. Aspásia viveu em uma das eras mais grandiosas da história do mundo, quando as civilizações clássicas floresceram na Grécia e Roma antigas. Conseguimos lembrar de diversos homens famosos desse período, como os filósofos Sócrates (470?-399 a.C.), Platão (427?-347 a.C.) e o dramaturgo Eurípedes (484-406 a.C.). Entretanto, muito pouco se registrou sobre as mulheres da época, porque elas eram em geral, relegadas aos papéis de escravas, cortesãs ou esposas, sendo confinadas ao lar e excluídas da participação na vida pública.
Aspásia, que nasceu em Mileto, na região leste da Grécia, chegou a Atenas por volta de 450 a.C. Como vinha de fora, por lei, não podia se casar; tornou-se então, uma das mulheres do grupo conhecido como hetera – mulheres de excelente educação e que, por serem solteiras, tinham liberdade para estudar, assistir a palestras e até participar de debates com homens.
Aspásia, cerca de 450 a.C., gravura.
Conhecida por sua genialidade e grande beleza. Aspásia abriu uma escola de filosofia e retórica. Em pouco tempo, sua casa de transformou em um dos salões mais importantes de Atenas, freqüentada pelos estudiosos, políticos e artistas que mais se destacavam na época, inclusive por Platão, que afirmou que ela havia lhe ensinado a teoria do amor, e Sócrates, que disse ter sido ela que lhe ensinou a arte da eloqüência. Também freqüentava a casa de Aspásia, o juiz mais importante de Atenas, Péricles (495-429 a.C). Durante seus 30 anos de governo, período que posteriormente ficou conhecido como a era Péricles, Atenas se tornou um estado democrático e reinou como centro intelectual e artístico do país.
Péricles se apaixonou por Aspásia, mas como ela não era natural de Atenas, e conseqüentemente não podia se tornar sua esposa legal, ele se divorciou de sua esposa e a fez sua consorte. A partir de então, Aspásia tornou-se sua conselheira política e confidente, apoiando-o em sua luta contra a aristocracia em prol do estabelecimento da democracia. Alguns historiadores a consideram responsável pela desastrosa Guerra da Peloponeso (431 a.C.), que teria sido declarada por Péricles devido à sua insistência. Outros atribuem a ela a redação do eloqüente discurso feito por Péricles a suas tropas ao final da guerra. Aspásia também o convenceu a mudar as leis que restringiam os papéis das mulheres na sociedade grega.
Após a morte de seus dois filhos com sua primeira mulher, Péricles sancionou uma lei tornando seu filho com Aspásia, também chamado Péricles, cidadão ateniense. Mais tarde, o jovem Péricles se tornou general do exército. Impossibilitados de criticar Péricles diretamente, os atenienses, que se ressentiam do seu relacionamento com Aspásia a acusaram de faltar ao respeito para com os deuses. Depois da defesa veemente e lacrimosa de Péricles, Aspásia foi considerada inocente.